quarta-feira, 25 de janeiro de 2023

A AMANTE DO TENENTE FRANCÊS

 
Título original: “The French Lieutenant’s Woman” (1969)
Editora: Editorial Presença, Lda, Dezembro 1983
Tradução: Paula Vitória Silva
Capa de Rui Ligeiro
Dimensões: 155 X 225 x 200 mm
Nº de páginas: 360

O escritor inglês John Fowles, que em 1969 publicou “A Amante do Tenente Francês”, considerado um dos primeiros romances "pós-modernos", faleceu em 2005, a 5 de Novembro, em Inglaterra. Tinha 79 anos e estava doente há já algum tempo. Desde a década de 80 que Fowles tinha problemas de coração, na sequência de um enfarte sofrido na altura. Escreveria mais tarde que sempre tinha querido escapar ao meio em que nasceu, já que ninguém na sua família tinha interesses literários ou propensão para as artes, e que se recordava de, quando jovem, ouvir os pais referirem-se a Picasso como “o tipo que não sabe desenhar”. «A boçalidade deles horrorizava-me». John Fowles começou a escrever aos 20 anos e publicou “O Coleccionador” em 1963 (já editado em Portugal pela Caminho), a história de um coleccionador de borboletas que decide juntar uma mulher à sua colecção. O livro foi um enorme sucesso de crítica e público, sendo adaptado ao cinema por William Wyler, com Terence Stamp no principal protagonista, e deu a Fowles a independência financeira para se poder dedicar à escrita a tempo inteiro. 

A adaptação de “A Amante do Tenente Francês” ao cinema por Harold Pinter, em 1981, com realização de Karel Reisz e interpretações de Jeremy Irons e Meryl Streep, contribuiu ainda mais para a sua popularidade, e para a fama de escritor: a obra tornou-se rapidamente um livro de culto, estudado em França e nos EUA a nível universitário. Sobretudo entre aqueles que nunca tinham lido um livro de John Fowles e nunca haveriam de ler outro. Vivia em Lyme Regis, numa casa com vista para o canal da Mancha, e era extremamente reservado, queixando-se de ser "perseguido" pelos leitores. «Tenho reputação de ser um homem de letras intratável, e não a tento desmentir. Mas não é verdade, em parte sou eu que a espalho», disse John Fowles em 2003, numa entrevista ao Guardian. Fowles assinou ainda obras como “The Magus” (1966) “The Ebony Tower” (1974), “Daniel Martin” (1977) ou “A Maggot” (1985), bem como alguns títulos de não ficção, ou ainda “Wormholes” (1998), que inclui apontamentos de diário e ensaios, entre outros. Nascido a 31 de Março de 1926, em Leigh-on-Sea, no Essex, Fowles estudou num colégio interno e cumpriu o serviço militar entre 1945 e 47, tendo-se depois formado em Literatura Francesa, em Oxford, e ensinado inglês em Londres, na Grécia e em França. A sua paixão pelas letras e pela cultura francesa torná-lo-ia num autor muito apreciado do outro lado do canal da Mancha, e também nos Estados Unidos o escritor seria mais popular do que na sua nativa Grã-Bretanha. Criticamente posicionado entre o modernismo e o pós-modernismo, os seus trabalhos foram influenciados, entre outros, por Albert Camus e Jean-Paul Sartre.

Neste romance ambientado no século XIX, em plena Inglaterra victoriana, John Fowles retrata uma história de paixão e loucura. Ao passar por uma pequena cidade da costa britânica com a sua noiva, Charles deixa-se seduzir por Sarah Woodruff, mulher de má reputação por ter sido desonrada e abandonada por um tenente francês. Na vila todos lhe apontam o dedo, chamando-lhe “a puta do tenente francês”. O filme estrear-se-ia em Lisboa no dia de Natal de 1981, no cinema São Jorge. Data dessa altura a minha paixão por Meryl Streep, paixão essa que ao longo dos anos foi murchando pouco a pouco, aliás como toda a boa paixão que se preze. Mas aqui a actriz continuava ainda em estado de graça, depois de ter protagonizado a inesquecível série “Holocausto” (1978), já disponível em Blu-ray, e assumido papeis relevantes em “The Deer Hunter/O Caçador”, de Michael Cimino (1978) e “Kramer vs. Kramer”, de Robert Benton (1979). Este seu duplo desempenho como Sarah/Anna seria o arranque a sério para uma carreira fulgurante, mantendo-se ainda hoje como um dos seus desempenhos mais inesquecíveis, embora, curiosamente, seja uma das interpretações que a actriz não preze muito.



Como já referido, “The French Lieutenant’s Woman” é baseado no conhecido e homónimo romance do britânico John Robert Fowles (1926-2005). Harold Pinter (1930-2008), outro britânico célebre (Prémio Nobel da literatura em 2005), escreveu o argumento do que a princípio parecia um romance infilmável, e Karel Reisz (1926-2002), também britânico, mas de ascendência checa, passou para o celulóide as duas histórias da obra, publicada pela primeira vez em 1969. À semelhança desta, em que Fowles aborda os amores proibidos da Inglaterra victoriana segundo a perspectiva cultural dos anos 60, também o filme vai evoluindo entre as duas épocas, ao introduzir um filme dentro do filme. Mike (Jeremy Irons) e Anna (Meryl Streep) são dois actores que mantêm uma relação de adultério, ao mesmo tempo que vão vivendo uma outra história de amor fictícia (localizada em 1897), nos personagens de Charles e Sarah.



Charles Smithson é um naturalista amador, seguidor das teorias darwinianas, que divide as suas atenções entre o estudo de fósseis e a corte à sua noiva, Ernestina Freeman (Emily Morgan), filha de um rico homem de negócios, e com quem planeia casar-se em breve. Mas um dia conhece Sarah Woodruff e tudo se altera. (De realçar a belíssima sequência no paredão do cais, a culminar naquele icónico close-up de Streep. Chama-se "Cobb" esse paredão. Pela perigosidade da situação Meryl Streep não participou das filmagens, pertencendo a um dos directores artísticos a silhueta que se vê ao longe. Foi em estúdio que depois foram filmados os magníficos close-ups, que se tornariam na imagem de marca do filme). Sarah é uma mulher independente, mas estigmatizada por um escandaloso (pelos padrões da época) relacionamento com um tenente da marinha francesa chamado Varguennes, que é casado, e que a teria abandonado depois dela se servir. A população de Lyme, onde a acção se situa, chama-lhe “a tragédia”, ou, ainda pior, “a puta do tenente francês”. É toda essa aura misteriosa que envolve Sarah, aliada ao seu ar frágil e desprotegido, que intriga Charles, vindo a despertar nele uma curiosidade crescente por aquela mulher solitária e proscrita. Pouco a pouco, através de alguns encontros furtivos, a atracção instala-se entre os dois, transformando-se, rápida e naturalmente, numa forte ligação amorosa.

Como não podia deixar de ser (para ser fiel à ideia central do romance de Fowles), Karel Reisz apresenta-nos todo o seu filme em montagem paralela, em que a ficção se confunde com a realidade, entrelaçando-se as duas histórias de amor nos percursos vividos pelos duplos personagens. Daqui resulta um momento único e apaixonante do cinema romântico, meticulosamente construído, e magistralmente servido pelas interpretações brilhantes de Irons e, sobretudo, Meryl Streep, a qual, nunca é demais dizê-lo, tem aqui um desempenho inolvidável, que chega a roçar a perfeição, num jogo de expressões e emoções raramente visto em cinema. A actriz ganharia o BAFTA inglês e o Globo de Ouro na categoria drama, mas perderia o Oscar para Katharine Hepburn (pelo filme “On Golden Pond / A Casa do Lago”). Dá para acreditar?

A música de Mozart faz sobressair a excelente cinematografia de Freddie Francis, e o filme está recheado de sequências inesquecíveis, como a já citada cena do paredão, o monólogo de Sarah a contar a sua história a Charles ou aquela única noite de amor vivida no quarto de hotel de Exceter. Dos três finais que Fowles apresenta no seu romance, dois deles são aqui usados para finalizar o filme. Não são alternativos, mas ocorrem como tudo o resto em simultâneo, permitindo ao espectador, tal como ao leitor do livro, uma escolha pessoal, de acordo com a sua sensibilidade e posicionamento. A opção é, uma vez mais, entre a ficção e a realidade. Mas onde começa uma e termina outra?

(Post by Jota Marques)

terça-feira, 24 de janeiro de 2023

TRILOGIA "HISTÓRIA DOS PALADARES"

 

A história da evolução do gosto, que levou à educação do paladar e à eleição da gastronomia como uma arte, percorreu um longuíssimo caminho, desde a Idade da Pedra até aos nossos dias. Esse percurso é narrado numa trilogia através de acontecimentos passados nos cinco continentes, episódios históricos e mitos nacionais e universais, personalidades que reflectiram e influenciaram o mundo dos paladares (reis, filósofos, cientistas, escritores) e também de várias centenas de receitas que atravessaram séculos ou mesmo milénios, por via oral, manuscrita ou impressa, através de incontáveis gerações, chegando quase inalteradas aos nossos dias. A vastidão do tema levou a autora a dividir a obra em três volumes, que se completam, embora com perspetivas distintas: o de Sedução, o primeiro, gira em torno dos paladares mais viscerais e que mais apelo fazem aos sentidos; o de Perdição, com prefácio de Virgílio Gomes, um autor consagrado na temática da gastronomia e um dos maiores especialistas portugueses na sua história; e finalmente o terceiro volume dedicado à Redenção, com prefácio do Chef João d’Eça Lima.

O primeiro volume desta trilogia sobre a história dos paladares recebeu inúmeros elogios da crítica e, mais importante ainda, o prémio maior da gastronomia, o Óscar da Gastronomia, como a ele muitas vezes se referem: foi considerado pela Académie Internationale de la Gastronomie o melhor livro de 2021. Mais recentemente, a sua autora, Deana Barroqueiro, viu o seu nome ser novamente consagrado, desta vez com o Prémio Femina 2021, pelo estudo e divulgação da cultura, história e sociedade de matriz portuguesa no estrangeiro e na lusofonia. Mais recentemente, os dois primeiros volumes receberam o galardão de melhores do mundo em 2022, nas categorias de "Séries" e "História da Gastronomia", pela organização Gourmand Best in the World Awards.

Deana Barroqueiro nasceu em New Haven Connecticut, nos Estados Unidos da América, em 23 de julho de 1945. Foi essencialmente através da escrita que tomou consciência do seu ser e se relacionou, comunicando e comungando, com o mundo que a rodeava. Licenciou-se em Filologia Românica na Faculdade de Letras de Lisboa, de cujo grupo de teatro fez parte juntamente com Luís Miguel Cintra, Luís Lima Barreto, Jorge de Silva Melo e tantos outros, num tempo conturbado mas de contínua mudança que recorda com saudade e emoção. Por vocação, tornou-se professora de Português, fazendo o estágio na Escola Secundária Passos Manuel, em Lisboa, onde tem concretizado a maioria dos seus projectos de Teatro e de Escrita Criativa com os alunos, tendo publicado várias obras com o Grupo de Trabalho do M.E. para as Comemorações dos Descobrimentos Portugueses, a Câmara Municipal de Lisboa e o Instituto de Inovação Educacional. Deana Barroqueiro confessa-se uma apaixonada da Língua e Cultura portuguesas, em particular dos Séculos XVI a XVIII, que estuda há mais de vinte anos, e sendo, por natureza ou vício, uma contadora de histórias, não resistiu ao desejo de partilhar, com quem a quiser escutar, essas surpreendentes descobertas das vidas aventurosas ou trágicas, por isso mesmo tão humanas e próximas, de personagens históricas que fazem parte do nosso imaginário coletivo. Publicou oito romances históricos e dois livros de contos, os quais já se encontram traduzidos e editados em Espanha, em Itália e no Brasil. No dia 21 de Novembro de 2003, nos Estados Unidos da América, durante o sarau para atribuição de prémios do Concurso Literário Proverbo, de cujo júri fez parte, a escritora recebeu um louvor pela Câmara de Newark, em reconhecimento do seu contributo para a divulgação e promoção da língua e cultura portuguesas entre as comunidades de emigrantes da América, Canadá e Europa. É autora do primeiro livro de ficção editado pela Porto Editora, D. Sebastião e o Vidente e venceu o Prémio Máxima de Literatura (Prémio Especial do Júri).

(Post by Jota Marques)

sábado, 21 de janeiro de 2023

Breve História da Europa

The Shortest History of Europe

JOHN HIRST


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JOHN HIRST nasceu em Adelaide, Austrália, em 1942. Historiador de renome, Professor Emérito da Universidade La Trobe, em Melbourne, onde foi responsável pelo Departamento de História, foi membro da direção do National Museum of Austrália. Escreveu diversos livros sobre a história do país e foi editor da revista Historical Studies. Hirst era um intelectual e comentarista social, e escrevia regularmente para vários veículos e publicações populares. Faleceu em 2016.



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 A civilização europeia não é a mais antiga da história universal, porém é única e irrepetível porque soube impor-se como nenhuma outra antes.
Navegou, lutou, conquistou, evangelizou. Agiu quando mais ninguém arriscou, pelo que a história da evolução humana se confunde com a europeia. 
Este livro expõe - resumidamente como poucos -, toda a História da Europa. É um livro obrigatório em qualquer biblioteca. Hoje, todos os países à face da Terra usam as descobertas científicas e as tecnologias de origem europeia.

«Um pequeno livro sábio e luminoso»
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Ficha Técnica

Título: Breve História da Europa
Título original: The Shortest History of Europe
Autor: John Hirst
Tradução: José Mendonça da Cruz

Revisão: Rita Bento / Inês Hugon
Capa: Dirty White Design
Imagem da capa: © fevereiro 2013
Mapas: Thomas Deverall,
adaptação de Dirty White Design
ISBN: 9789722066822

 Publicações Dom Quixote uma editora do grupo LeYa


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«Concebido com graça e economia e no entanto rico em factos, emoção e pormenor, abrangente, provocador e divertido.»  
James Button 


«Um livrinho sábio e luminoso.»
Peter Craven, The Sydney Morning Herald 


«Prosa fresca, lúcida e evocativa… O equilíbrio de análise e descrição, generalização e abordagem específica é maravilhosamente sustentado.»
Wilfred Priest, Australian Book Review


«Fantástico, o livro no seu todo é um desafio intelectual permanente.»
The Courier Mail


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INTRODUÇÃO

Se gosta de saltar até ao fim dos livros para ver o que acontece, vai gostar deste livro. Os finais começam pouco depois do começo. Aqui conta-se a história da Europa seis vezes, de um ângulo diferente a cada vez. Estes textos eram originalmente preleções destinadas à introdução de estudantes universitários ao estudo da história europeia. Não comecei pelo princípio para ir até ao fim. Proporcionei aos estudantes uma rápida visão geral e regressei mais tarde e com mais pormenor. As primeiras duas preleções são um esboço da totalidade da história Europeia. É realmente uma breve história. As seis preleções seguintes versam cada uma delas um tema particular. O objetivo é aprofundar a compreensão mediante a revisão e a análise mais pormenorizada. Uma história tem um enredo: um princípio, um meio e um fim. Neste sentido, uma civilização não tem história. Ficamos interessados numa história que conte a ascensão e a queda de uma civilização, mesmo que essa queda não represente o seu fim. O meu objetivo aqui é identificar os elementos essenciais da civilização europeia e verificar como se foram reconfigurando ao longo dos tempos; mostrar como as coisas novas tomam forma a partir das antigas; como o antigo permanece e retorna. Os livros de história ocupam-se de muitos factos e de pessoas. Esta é uma das forças da história e é ela que nos revela a vida. Mas qual é o significado de tudo aquilo? Quais as coisas realmente importantes? São estas as perguntas que trago sempre presentes. Muitos factos e pessoas que entram em outros livros de história não entram neste. As preleções mais pormenorizadas da segunda parte do livro param por volta de 1800, e isto simplesmente porque quando preparei estas preleções havia outra disciplina que tratava da Europa pós-1800. Imagine-se a quantidade de história que fica de fora! Ocasionalmente, pus os olhos mais adiante, mas, se a abordagem que escolhi der resultados, deverão reconhecer o mundo em que hoje vivemos, cujas linhas mestras foram traçadas há muito. Depois da época clássica, o livro ocupa-se principalmente da Europa ocidental. As várias partes da Europa não têm importância igual na construção da civilização europeia. O Renascimento, na Itália, a Reforma, na Alemanha, o governo parlamentar, na Inglaterra, a democracia revolucionária, em França – estes acontecimentos são mais determinantes do que as partições da Polónia. Recorri frequentemente à obra de sociólogos históricos, em particular a Michael Mann e a Patricia Crone. A Professora Crone não é perita em história da Europa; a sua especialidade é o islão. Mas num livrinho intitulado Sociedades Pré-Industriais, ela incluiu um capítulo sobre «A singularidade da Europa». É um tour de force, uma história completa em trinta páginas, quase tão breve como a minha mais breve história. Esse capítulo enriqueceu-me com o conceito da construção e reengenharia do cadinho europeu, tal como o exponho nas duas primeiras preleções. Eis a medida da minha dívida para com ela. Durante alguns anos, na La Trobe University, em Melbourne, tive a sorte de me tornar colega do professor Eric Jones, um grande defensor da abordagem panorâmica da história, e a cujo livro, «O Milagre Europeu», recorri muitas vezes. Não reclamo para este livro outra originalidade que não a do seu método. Estas preleções foram oferecidas em primeiro lugar a estudantes australianos que tinham estudado demasiada história australiana e sabiam muito pouco da civilização a que pertenciam.

John Hirst

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 A EUROPA CLÁSSICA E MEDIEVAL  

 A civilização europeia é ímpar por ser a única que se impôs ao resto do mundo. Fê-lo mediante conquista e colonização; mediante o seu poder económico; mediante o poder das suas ideias; e porque tinha coisas que todos os outros queriam. Hoje, todos os países à face da Terra usam as descobertas científicas e as tecnologias por elas geradas, mas a ciência foi uma invenção europeia. 

No seu começo a civilização europeia era constituída por três elementos: 
 1. a cultura da Grécia e Roma antigas 
 2. o cristianismo, que é um fruto heterodoxo da religião dos judeus, o judaísmo 
 3. a cultura dos guerreiros germanos que invadiram o Império Romano. 
 
A civilização europeia era uma mistura, e a importância disto tornar-se-á evidente à medida que avançarmos.
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Cidades e colónias da Grécia Antiga, c. 550 a.C.


Antigas colónias e cidades gregas. 
A civilização grega estabeleceu colónias comerciais e agrícolas à volta do Mediterrâneo e do Mar Negro.

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O Império Romano, c. 117 A.D.

O Império Romano, no seu auge (c. 117 d.C.), era a mais extensa estrutura política e social da civilização ocidental. Em 285 d.C., o império havia se tornado vasto demais para ser gerido a partir do governo central em Roma e, por isso, foi dividido pelo imperador Diocleciano (r. 284-305 d.C.) em Império Ocidental e Oriental. 


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O Império Romano, c. 100 A.D.

O Império Romano teve início quando Augusto César (r. 27 a.C. - 14 d.C.) se tornou o primeiro imperador de Roma e chegou ao fim, no ocidente, quando o último imperador romano, Rômulo Augústulo (r. 475-476 d.C.), foi deposto pelo rei germânico Odoacro (r. 476 - 493 d.C.). 
No oriente, ele continuou como Império Bizantino até a morte de Constantino XI (r. 1449-1453) e a queda de Constantinopla ante os turcos otomanos em 1453. 
A influência do Império Romano na civilização ocidental foi profunda, deixando as suas duradouras contribuições em virtualmente cada aspecto da cultura ocidental.


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Os germanos eram iletrados e não deixaram registos escritos, dispondo nós, portanto, de muito pouca informação sobre eles antes da invasão. O melhor relato – e, provavelmente, não em primeira mão – é do historiador romano Tácito, e data do século I A.D. Descreve os chefes e companheiros que viviam e guerreavam juntos, vivendo para guerrear. No campo de batalha, é uma desgraça para o chefe ser ultrapassado em coragem pelos companheiros e para os companheiros, não igualar a coragem do seu chefe. Abandonar vivo uma batalha depois do seu chefe tombar significa infâmia e vergonha para toda a vida. Defender, proteger e creditar ao chefe os próprios atos de heroísmo – eis para eles o verdadeiro significado de lealdade. Os chefes combatem pela vitória, os companheiros, pelo seu chefe. Muita da nobre juventude, estando a sua terra de nascimento estagnada em prolongada paz, busca deliberadamente outras tribos em que alguma guerra decorra.


Os germanos têm desgosto pela paz. A fama ganha-se mais facilmente entre perigos, só se pode manter um largo corpo de companheiros pela violência e pela guerra. Os companheiros estão sempre a exigir coisas dos seus chefes: dá-me aquele ginete ou dá-me aquela sangrenta e vitoriosa lança. Quanto a refeições, de cariz abundante embora caseiro, contam simplesmente como soldo. Uma tal liberalidade só pode ser alimentada pela guerra e a pilhagem. Ser-vos-á difícil persuadir um germano a lavrar a terra e aguardar pacientemente o seu fruto anual, em vez de desafiar um inimigo e colher o preço dos ferimentos. Considerará vão e inferior ganhar pelo suor o que pode comprar com sangue. Este é o povo que, trezentos anos depois, conquistará o Império Romano. Passámos em revista os três elementos. Tratemos de os resumir. Segundo a visão grega, o mundo é simples, lógico e matemático. Segundo a visão cristã, o mundo é mau e só Cristo pode salvar. Segundo os guerreiros germânicos, o combate é divertido.

Como se combinaram os três elementos? Primeiro, consideremos a conexão entre o cristianismo e o mundo greco-romano. As autoridades romanas tentaram, de tempos em tempos, erradicar o cristianismo. Apreenderam as escrituras sagradas, confiscaram os bens da Igreja, prenderam e torturaram cristãos, executaram os que não renegaram a Cristo. Os romanos eram, normalmente, muito tolerantes. Administravam um império composto de várias raças e religiões: desde que os súbditos mantivessem a paz, os romanos estavam dispostos a deixá-los seguir o seu próprio caminho. Podiam autogovernar-se. Podiam praticar a sua própria religião, com uma ressalva: tinham de sacrificar em honra do imperador. Os romanos acreditavam que o seu imperador era uma espécie de deus. O sacrifício que lhes era exigido era trivial: manter um retrato ou uma estátua do imperador e, frente a ela, uma chama. Pegar uma mão cheia de sal e lançá-la sobre a chama. A chama avivava-se. E bastava. Era como saudar a bandeira ou cantar o hino nacional. Mas, como os judeus, os cristãos recusavam fazê-lo, pois diziam que deviam adorar um só Deus, e não tratariam o imperador como manifestação divina alguma. Os romanos costumavam escusar os judeus de homenagearem o imperador. Tinham-nos por embirrentos e volúveis, mas respeitáveis, um povo antigo com os seus templos e o seu deus, ocupando determinada porção do território. Pelo contrário, os cristãos eram seguidores de uma religião nova e cristão podia ser qualquer um em qualquer parte. Os romanos consideravam-nos gente subversiva que era necessário eliminar. Poderiam ter sido bem-sucedidos, se a perseguição tivesse sido sistemática. Mas aconteceu um milagre. Em 313 A.D., um imperador, Constantino, tornou-se cristão, ou, pelo menos, concedeu apoio oficial às igrejas cristãs, pensando que o seu deus poderia velar por ele e pelo império melhor do que qualquer outro. Quando o cristianismo estava ainda longe de ser uma fé maioritária, o chefe de Estado abraçou-o, deu dinheiro às igrejas e reconheceu a autoridade dos bispos. Cinquenta anos mais tarde, outro imperador cristão ilegalizou todas as outras religiões. Quatrocentos anos depois de Jesus ter pregado numa problemática e longínqua província do Império Romano, o cristianismo tornava-se a religião oficial e única do império. Bispos e padres desfilavam pelas cidades e marchavam sobre os campos para destruir os templos pagãos. Eis o primeiro elo entre os três elementos: o Império Romano torna-se cristão. Chegada a esta fase, a Igreja era muito diferente do que fora nos primeiros tempos. No princípio, os grupos de cristãos reuniam-se em locais privados. Agora, três ou quatro séculos depois, havia toda uma hierarquia de autoridades a tempo inteiro e remuneradas: padres, bispos e arcebispos. Um dos bispos – o bispo de Roma – conseguira tornar-se papa e governar a Igreja. A Igreja tinha o seu próprio sistema de leis e os seus próprios tribunais e masmorras para fazer cumprir a lei. A Igreja administrava matérias bem importantes, como o casamento e as sucessões, e não apenas os assuntos próprios da Igreja. A Igreja geria e fazia aplicar o seu sistema de impostos, pois todos estavam obrigados a pagar para a sustentar. Quando o Império Romano ruiu, a Igreja sobreviveu – tinha o seu próprio governo. O papa era uma figura paralela ao imperador, controlava uma hierarquia de autoridades sob o seu mando. Aqui vislumbramos o segundo elo na constituição da mistura: a Igreja torna-se romana.

















(Post by Zé Marrana)



terça-feira, 17 de janeiro de 2023

A CABANA DO PAI TOMÁS

 

Título original: Uncle Tom’s Cabin (1852)
Edição: Romano Torres (1971)
Tradução: Leyguarda Ferreira
Dimensões: 120 X 185 X 24 mm
Nº de páginas: 318

 Não há muitos livros que tenham causado tanto impacto como "A Cabana do Pai Tomás" escrito por Harriet Beecher Stowe.  Publicado entre 1851 e 1852 sob a forma de folhetim, num jornal antiescravagista  e recusado pelos primeiros editores a quem foi proposto sob a forma de livro, "A Cabana do Pai Tomás" acabaria por ser editado nesse formato em 1852. O livro vendeu 300.000 exemplares no primeiro ano, um número espantoso para a época. É o relato comovente da cruel separação de uma família negra e da vida repleta de sofrimento que o personagem Pai Tomás teve de enfrentar, o que faz desta obra um verdadeiro manifesto contra a escravatura, numa história de fé, coragem,  perseverança e luta. “A Cabana do Pai Tomás”,  foi o primeiro romance americano a vender mais de 1 milhão de exemplares, além de ser considerada por muitos como a obra de ficção mais influente já escrita. Ao ponto de ter sido proibida em vários estados sulistas e, por outro lado, de ter inspirado muitos líderes da abolição. Foi o romance mais vendido do século XIX e o segundo livro deste século, logo a seguir à Bíblia. Em 1855, três anos depois da primeira publicação, foi chamado "o romance mais popular dos nossos dias”. O impacto atribuído ao livro é enorme, reforçado por uma história de quando Abraham Lincoln conheceu Stowe no início da Guerra Civil, e lhe disse: «Então é esta a pequena senhora que deu início a esta grande guerra?» A citação não é reconhecida; só apareceu impressa em 1896, e tem sido alvo de discussão: "A longa presença da saudação de Lincoln como uma anedota em estudos literários e estudos sobre Stowe, pode talvez ser explicada em parte pelo desejo entre muitos intelectuais contemporâneos... de afirmar o papel da literatura como agente de mudança social."

“A Cabana do Pai Tomás” está escrito no estilo sentimental e melodramático comum nos romances do século XIX e da ficção doméstica (também designada por ficção para mulheres). Estes géneros eram os mais populares na época de Stowe, havia a tendência para ter personagens principais femininas e um estilo de escrita que tocava nas emoções e na simpatia dos leitores. Embora o romance seja diferente de outros, ao focar-se num tema de grande peso como a escravatura, e por ter um homem como figura central, Stowe tenta da mesma forma criar um ambiente de grandes sentimentos nos seus leitores. Apesar da reacção positiva dos leitores, durante décadas os críticos literários subvalorizaram o estilo encontrado em “Uncle Tom's Cabin” e outros romances sentimentais, porque estes livros eram escritos por mulheres e, por isso, eram influenciados pelas "emoções instáveis das mulheres."Uncle Tom's Cabin” indignou sobretudo as pessoas do Sul dos Estados Unidos. Académicos e leitores criticaram o livro por acharem que contém descrições racistas condescendentes das personagens negras do livro, especialmente no que diz respeito às aparências, bem como a natureza passiva do protagonista ao aceitar o seu destino. A utilização no romance de estereótipos comuns sobre os afro-americanos é significativo porque "A Cabana do Pai Tomás" foi o livro mais vendido no mundo durante o século XIX. Como resultado, o livro (juntamente com as suas ilustrações e produções teatrais associadas) desempenharam um papel importante na formação permanente desses estereótipos na mente americana. 

O famoso escritor sulista William Gilmore Simms declarou que a história era totalmente falsa, enquanto outros disseram que o romance era criminoso e calunioso. As reacções tomaram diversas formas, chegando ao ponto de serem enviadas cartas ameaçadoras a Stowe (incluindo um pacote contendo a orelha decepada de um escravo). Muitos escritores sulistas, como Simms, escreveram os seus próprios livros com versões opostas à de Stowe. No entanto, em 1985, Jane Tompkins expressou uma visão diferente de “Uncle Tom's Cabin” no seu livro "In Sensational Designs: The Cultural Work of American Fiction.” Tompkins elogia o estilo que tantos outros críticos subvalorizaram, escrevendo que os romances sentimentais mostraram como é que as emoções das mulheres tinham o poder para mudar o mundo para melhor. Mas acrescenta que os romances domésticos populares do século XIX, incluindo "Uncle Tom's Cabin", eram notáveis pela sua "complexidade intelectual, amição e desenvoltura"; e que "Uncle Tom's Cabin" transmite uma "crítica da sociedade americana mais devastadora do que qualquer outra feita por críticos mais conhecidos como Hawthorne e Melville.

Harriet Beecher Stowe nasceu em Litchfield, Connecticut, a 14 de Junho de 1811. Ela foi a sexta de 11 crianças nascidas de um padre calvinista, Lyman Beecher. A mãe, Roxana, foi uma mulher profundamente religiosa que morreu quando Stowe tinha apenas cinco anos. O avô materno de Roxana era o general Andrew Ward da Guerra Revolucionária. Harriet matriculou-se no Seminário Feminino de Hartford dirigido pela irmã mais velha, Catharine. Aí recebeu algo que as meninas raramente obtinham, uma educação académica tradicional, com foco em clássicos, línguas e matemática. Entre os seus colegas de classe estava Sarah P. Willis, que mais tarde escreveu sob o pseudónimo de Fanny Fern. Em 1832, com 21 anos, Harriet Beecher mudou-se para Cincinnati, Ohio, para se juntar ao pai, que se tinha tornado presidente do Seminário Teológico Lane. Começa nessa altura a frequentar um salão literário e clube social.  O comércio e o transporte marítimo de Cincinnati no rio Ohio estavam em fase crescente, atraindo vários migrantes de diferentes partes do país, incluindo muitos escravos fugitivos, caçadores de recompensas e imigrantes irlandeses que trabalhavam nos canais e ferrovias do estado. Em 1829, a etnia irlandesa atacou os negros, destruindo áreas da cidade, tentando expulsar esses concorrentes em busca de empregos. Beecher conheceu vários afro-americanos que sofreram esses ataques, e a experiência deles contribuiu para que ela escrevesse mais tarde sobre a escravidão. Harriet também foi influenciada pelos "Debates da escravidão". O maior evento já ocorrido em Lane (faculdade teológica presbiteriana em Walnut Hills, Ohio), foi a série de debates travados em 18 dias em Fevereiro de 1834, entre os defensores da colonização e da abolição, vencidos de forma decisiva por Theodore Weld e outros abolicionistas. Harriet participou da maioria dos debates. O pai e os curadores, com medo de mais violência dos brancos antiabolicionistas, proibiram qualquer discussão sobre o assunto. O resultado foi um êxodo em massa dos alunos de Lane, juntamente com um curador solidário e um professor, que se mudaram como um grupo para o novo Oberlin Collegiate Institute depois que seus curadores concordaram, por uma votação acirrada e amarga, em aceitar estudantes independentemente de "raça" e permitir discussões de qualquer tópico. Foi no clube literário de Lane que Harriet conheceu o Rev. Calvin Ellis Stowe, um viúvo que era professor de Literatura Bíblica no seminário. Vêm-se a casar no seminário em 6 de janeiro de 1836. Durante a sua vida, Harriet Stowe escreveu 30 livros, incluindo romances, três memórias de viagens e colecções de artigos e cartas. Foi influente tanto pelos seus escritos quanto pelas posições e debates públicos sobre as questões sociais da época. O mais famoso é na verdade o romance “Uncle Tom's Cabin / A Cabana do Pai Tomás", que alcançou uma audiência de milhões, tornando-se influente nos Estados Unidos e na Grã-Bretanha, energizando forças antiescravistas no norte estadunidense, enquanto provocava a raiva generalizada no sul. Harriet Stowe viria a falecer, com 85 anos, no dia 1 de Julho de 1896 em Hartford, EUA.

(Post by Jota Marques)

quinta-feira, 12 de janeiro de 2023

AMAR-TE LENTAMENTE

(Post by Jota Marques)

EU GULOSO ME CONFESSO

Editora: 101 Noites (Outubro 2002)
Tradução e selecção de textos: Sandra Silva e Ana Matoso
Prefácio: Miguel de Castro Henriques
Capa: Inês Sena
ISBN: 972-849-413-0
Dimensões: 150 X 230 X 20 mm
Nº de páginas: 96

Jean Cocteau: “Preceitos Para a Arte da Mesa”

Come a sopa. Endireita-te. Come devagar. Não comas tão depressa. Bebe enquanto comes. Corta a carne em pedaços pequenos. Só sabes torcer-te e engolir. Não brinques com a faca. Não é assim que se pega no garfo. Não se canta à mesa. Despeja o teu prato. Não te balances na cadeira. Acaba o pão. Empurra com o pão. Mastiga. Não fales com a boca cheia. Não ponhas os cotovelos em cima da mesa. Apanha o guardanapo. Não faças barulho a comer. Só sais da mesa quando acabarmos de comer. Limpa a boca antes de me beijar. Esta pequena lista desperta inúmeras recordações da nossa infância… Só muito mais tarde compreendemos que um jantar pode ser uma verdadeira obra de arte.

(Post by Jota Marques)

quarta-feira, 11 de janeiro de 2023

BLACK OUT

 

Título original: Black Out (2008)
Editora: Editorial Presença (Outubro 2009)
Tradução: Lucinda Santos Silva
Capa: Filipa Costa Félix
Fotografia: Corbis/VMI
ISBN: 978-972-234-240-7
Dimensões: 150 X 229 X 16 mm
Nº de páginas: 288

Lisa Unger (nascida: Lisa Miscione, New Haven, 26 de Abril de 1970) é uma escritora norte-americana de ficção contemporânea, principalmente thrillers psicológicos. Com livros publicados em 31 idiomas e milhões de exemplares vendidos em mais de 25 países, Lisa Unger nasceu em New Haven, Connecticut, Estados Unidos, mas cresceu na Holanda, Inglaterra e Nova Jersey. Mudou-se para Nova York depois do ensino secundário, onde se formou na New School for Social Research e passou uma década a trabalhar em publicações em Nova York. Depois de umas férias na Flórida, onde conheceu o futuro marido, Lisa mudou de vida: casou-se com Jeff Unger, renunciou ao emprego, mudou-se para a Flórida e deu a si mesma um ano para vender o seu primeiro romance, “Angel Fire” (2002), ainda com o nome de Lisa Miscione. Actualmente tem cerca de 24 títulos publicados e continua a viver na Flórida com o marido e o filho.

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terça-feira, 10 de janeiro de 2023

A HONRA PERDIDA DE KATHARINA BLUM ~ HEINRICH BÖLL

Título original: Die Verlorene der Katharina Blum (1974)
Editora: Abril Controljornal (Agosto 2000)
Tradução: Maria Helena Rodrigues de Carvalho
Capa: Carlos Bravo
Ilustração da capa: André Kano
ISBN: 972-611-654-6
Dimensões: 124 X 212 X 12 mm
Nº de páginas: 98

“Die Verlorene Ehre der Katharina Blum / A Honra Perdida de Katharina Blum”, é descrito não como um romance, e muito menos «um romance sobre terroristas», mas sim, segundo o próprio autor, «um panfleto disfarçado de narrativa, um escrito polémico», ou, muito simplesmente, «uma história de amor», que opõe uma boa rapariga, uma simples e honesta empregada doméstica que se apaixona casualmente por um homem procurado pela Polícia, a um poderoso jornal sensacionalista: vendo-se arrastada para o centro de uma campanha difamatória, e perante a «violência dos cabeçalhos» e a total destruição da sua vida privada, Katharina Blum é forçada a ir até às últimas consequências para defender a sua honra e dignidade. Retrato ferozmente crítico de uma sociedade alemã dividida e em convulsão, “A Honra Perdida de Katharina Blum” foi originalmente publicada em 1974 e adaptada ao cinema no ano seguinte, tornando-se um dos livros mais célebres do Prémio Nobel, bem como da literatura europeia do pós-guerra. O filme foi dirigido por dois realizadores, Volker Schlöndorff e Margarethe Von Trotta, que também assinaram o respectivo argumento cinematográfico. As interpretações ficaram a cargo de Angela Winkler e Mario Adorf nos principais papéis.

Escritor alemão, Heinrich Böll nasceu a 21 de Dezembro de 1917 na cidade de Colónia. Filho de um escultor e entalhador, descendente de uma família de ingleses que fugiram às perseguições religiosas do seu país. Começou a ir à escola aos sete anos de idade, e estudou sempre em Colónia. Foi um dos poucos jovens a não aderir à Juventude Hitleriana, o que o isolou nos livros e, sobretudo, no cultivo da poesia. Concluindo os seus estudos secundários em 1937, Heinrich Böll começou a trabalhar como aprendiz numa firma editora-livreira e alfarrabista, mas acabou por abandonar o ofício no ano seguinte. Começou então a escrever, ganhando algum dinheiro a dar explicações. Nos finais do ano de 1938 iniciou o cumprimento de um período de trabalho obrigatório, na época um requisito para a admissão em qualquer universidade. Matriculou-se assim na Universidade de Colónia como estudante de Filologias Clássica e Germânica, mas uma vez mais teve que interromper o seu percurso, desta feita ao ser engajado pelo exército na altura em que pairava já a ameaça da guerra. Combateu em várias frentes de batalha e, sobrevivendo às mais horrendas carnificinas, acabou por ser aprisionado pelas tropas norte-americanas em defesa do território alemão, já em 1945. Libertado em Novembro desse mesmo ano, fixou-se nos arredores de Colónia, uma casa parcialmente destruída, que foi reconstruindo, encontrando também tempo e disposição para escrever. Os seus primeiros contos foram publicados a partir de 1946, e o seu primeiro livro, uma novela intitulada “Der Zug War Pünktlich / O Trem Foi Pontual”, foi publicado em 1949. A obra debruçava-se sobre as crueldades que testemunhou antes e durante a Segunda Guerra Mundial, e procurava não só libertar o autor dos seus traumas, como contribuir de certa forma para o esforço de reconstrução do país.


A partir de 1950 começou a trabalhar a título temporário no Instituto de Estatísticas de Colónia, onde se manteve até ao ano seguinte, altura em recebeu um convite para aderir à famosa tertúlia literária Gruppe 47, liderada por Günter Grass. Tornou-se escritor a tempo inteiro com a publicação de “Wo Warst Du, Adam?” (1951) e, em 1953, apareceu o seu primeiro grande romance de sucesso, “Und Sagte Kein Einziges Wort / E Não Disse Nem Mais Uma Palavra”, obra de tristeza e de esperança, de pobreza e sobrevivência, e em que Böll utiliza técnicas narrativas originais, característica do seu trabalho. Em “Ansichten Eines Clownes / Pontos de Vista dum Palhaço” (1963), o autor utiliza uma série de telefonemas para contar a história de um homem que se aliena da sociedade e que se faz de parvo para renunciar às suas responsabilidades. “Gruppenbild Mit Dame / Retrato de Grupo com Senhora” (1971) constituiu também uma inovação formal, já que Böll se serviu de um conjunto de documentos e entrevistas fictícias sobre Leni Pfeiffer para descrever as vidas de cerca de meia centena de outras personagens. A partir de 1968 lecionou na Universidade de Frankfurt, na Universidade de Praga (1969) e na de Israel 1970). Envolveu-se activamente na política a partir de 1972, juntando-se aos sociais-democratas de Willy Brandt. Nesse mesmo ano foi galardoado com o Prémio Nobel da Literatura. Em 1974 publicou “Die Verlorene Ehre der Katharina Blum / A Honra Perdida de Catarina Blum”. Heinrich Böll viria a falecer em Kreuzau, a 16 de Julho de 1985. Tinha 67 anos.


(Post by Jota Marques)

segunda-feira, 9 de janeiro de 2023

 
(Post by Jota Marques)

"OFÉLIA" ~ ARTHUR RIMBAUD

 

Arthur Rimbaud (1854-1891) foi um poeta francês que exerceu grande influência na poesia do século XX. Considerado um dos precursores da poesia moderna, nasceu em Charleville, França, no dia 20 de Outubro de 1854. Filho de um capitão de infantaria e de uma camponesa, teve uma educação bastante conservadora. Ainda criança começa a escrever as suas poesias, que foram reunidas em 1869, quando ele tinha apenas 15 anos. Em 1870, frequenta o Colégio de Charleville, onde faz amizade com Georges Iszambard, seu professor de retórica, que o incentiva na leitura dos poetas Rabelais, Victor Hugo e Théodore de Banville. A amizade com o professor era reprovada pela mãe. Nesse mesmo ano deu início a uma série de viagens, revelando o seu espírito aventureiro. Assim, com 16 anos apenas, viaja para Paris sem a autorização da mãe. Nessa época a França e a Prússia estavam em guerra. Rimbaud é preso mas com a intervenção do professor consegue ser libertado. De volta a Charleville vai morar na casa de uma amiga da família de Izambard. Em 1871, entre várias fugas, viaja para Paris, onde conhece o poeta Paul Verlaine, para quem havia remetido o poema “Soneto de Vogais”, que o acolhe em sua casa. É o início de uma conflituosa relação homossexual que chocou a sociedade da época.


Em 1872 Verlaine abandona mulher e filhos e vai com Rimbaud para Londres, onde iniciam uma vida boémia e desregrada. Em Abril de 1873, Rimbaud volta para a sua cidade natal, onde começa a escrever “Uma Temporada no Inferno”. Em Junho acompanha Verlaine, mais uma vez, numa viagem a Londres. Após muitas brigas, os dois separam-se e só se reencontram em Bruxelas, onde Rimbaud tenta romper a relação com Verlaine. Este chega a disparar contra o amante sob o efeito do álcool, ferindo-o na mão. Em consequência, Verlaine é condenado pela justiça da Bélgica a dois anos de prisão. De volta a Charleville, Rimbaud publica “Uma Temporada no Inferno” (1873), que reúne nove poemas em prosa. A obra foi considerada um marco da história da poesia e influenciou vários poetas modernos e muitos movimentos da contracultura do século XX. Em 1874 Rimbaud está de volta a Londres, desta vez em companhia do poeta Germain Nouveau. Nessa época publica “Iluminações”. Com apenas 20 anos, Rimbaud deixa de escrever e decide começar a trabalhar no comércio de café na Etiópia. Entra para o exército das colónias holandesas, mas em 1876 resolve desertar, e volta uma vez mais para a sua cidade natal. No ano seguinte viaja por diversas cidades. Em 1885, envolve-se com o tráfico de armas. Arthur Rimbaud vem a morrer em Marselha, França, vitimado por um cancro na perna, no dia 10 de Novembro de 1891. Tinha 37 anos.



 OFÉLIA

I.

Na onda calma e negra, entre os astros e os céus

A branca Ofélia, como um grande lírio, passa

Flutua lentamente e dorme em longos véus…

– Longe, no bosque, o caçador chamando a caça.


Mais de mil anos faz que a triste Ofélia abraça

Fantasma branco, o rio negro em que perdura

Mais de mil anos: toda noite ela repassa

À brisa a romança que em delírio murmura.

 

Beija-lhe o seio o vento e liberta em corola

Os grandes véus nas águas acalentadoras

Sobre os seus ombros o salgueiro se desola

Reclina-se o caniço à fronte sonhadora.

 

Nenúfares feridos suspiram por perto

Às vezes ela acorda, em vidoeiro ocioso

Um ninho de onde vem tremor de um vôo incerto:

– De astros dourados desce um canto misterioso.

 

II.

Morreste sim, menina que um rio carrega

Ó pálida Ofélia, tão bela como a neve!

– É que algum vento montanhês da Noruega

Contou que a liberdade é rude, mas é leve.

 

– É que um sopro, liberta a cabeleira presa

Em teu espírito estranhos sons fez nascer

E em teu coração logo ouviste a Natureza

No queixume da árvore e do anoitecer.

 

– É que a voz do mar furioso, tumulto impávido

Rasgou teu seio de menina, humano e doce

– E em manhã de Abril, certo cavalheiro pálido

Um belo e pobre louco, aos teus pés se ajoelhou.

 

E aí o céu, o amor: – Que sonho, pobre louca!

Ante eles era a neve, desmaiando à luz

Visões estrangulavam-te a fala na boca

O Infinito aterrava os teus olhos azuis!

 

III.

– E o Poeta diz que sob os raios das estrelas

Procuras toda noite as flores em delírio

E diz que viu na água, entre véus, a colhê-las

Vogar a branca Ofélia como um grande lírio.

"Ofélia", de Alexandre Cabanel

I

Sur l’onde calme et noire où dorment les étoiles

La blanche Ophélia flotte comme un grand lys

Flotte très lentement, couchée en ses longs voiles…

– On entend dans les bois lointains des hallalis.

 

Voici plus de mille ans que la triste Ophélie

Passe, fantôme blanc, sur le long fleuve noir

Voici plus de mille ans que sa douce folie

Murmure sa romance à la brise du soir.

 

Le vent baise ses seins et déploie en corolle

Ses grands voiles bercés mollement par les eaux 

Les saules frissonnants pleurent sur son épaule

Sur son grand front rêveur s’inclinent les roseaux.

 

Les nénuphars froissés soupirent autour d’elle 

Elle éveille parfois, dans un aune qui dort

Quelque nid, d’où s’échappe un petit frisson d’aile:

– Un chant mystérieux tombe des astres d’or.

 

II

O pâle Ophélia ! belle comme la neige!

Oui tu mourus, enfant, par un fleuve emporté!

C’est que les vents tombant des grand monts de Norwège

T’avaient parlé tout bas de l’âpre liberté.

 

C’est qu’un souffle, tordant ta grande chevelure

À ton esprit rêveur portait d’étranges bruits

Que ton coeur écoutait le chant de la Nature

Dans les plaintes de l’arbre et les soupirs des nuits.

 

C’est que la voix des mers folles, immense râle

Brisait ton sein d’enfant, trop humain et trop doux

C’est qu’un matin d’avril, un beau cavalier pâle

Un pauvre fou, s’assit muet à tes genoux!

 

Ciel ! Amour ! Liberté ! Quel rêve, ô pauvre Folle!

Tu te fondais à lui comme une neige au feu:

Tes grandes visions étranglaient ta parole

– Et l’Infini terrible éffara ton oeil bleu!

 

III

– Et le Poète dit qu’aux rayons des étoiles

Tu viens chercher, la nuit, les fleurs que tu cueillis

Et qu’il a vu sur l’eau, couchée en ses longs voiles

La blanche Ophélia flotter, comme un grand lys.

 

Nota: A história de Ofélia, personagem da obra Hamlet de William Shakespeare (1599-1601), foi fonte de inspiração para o poema de Arthur Rimbaud (1870). Ofélia é uma jovem da alta nobreza da Dinamarca, filha de Polônio e noiva do Príncipe Hamlet, que busca o amor e a liberdade. Abandonada pelo príncipe, enlouquece, afogando-se em desespero. No seu poema, Rimbaud ressalta e liga a mãe Natureza em harmonia universal à figura mítica de Ofélia, proporcionando uma sensação de paz e serenidade. Ofélia tem sido representada em livros, novelas, filmes, músicas, ciência e arte de diversos pintores.

(Post by Jota Marques)