quarta-feira, 25 de janeiro de 2023
A AMANTE DO TENENTE FRANCÊS
O escritor inglês John Fowles, que em 1969 publicou “A Amante do Tenente Francês”, considerado um dos primeiros romances "pós-modernos", faleceu em 2005, a 5 de Novembro, em Inglaterra. Tinha 79 anos e estava doente há já algum tempo. Desde a década de 80 que Fowles tinha problemas de coração, na sequência de um enfarte sofrido na altura. Escreveria mais tarde que sempre tinha querido escapar ao meio em que nasceu, já que ninguém na sua família tinha interesses literários ou propensão para as artes, e que se recordava de, quando jovem, ouvir os pais referirem-se a Picasso como “o tipo que não sabe desenhar”. «A boçalidade deles horrorizava-me». John Fowles começou a escrever aos 20 anos e publicou “O Coleccionador” em 1963 (já editado em Portugal pela Caminho), a história de um coleccionador de borboletas que decide juntar uma mulher à sua colecção. O livro foi um enorme sucesso de crítica e público, sendo adaptado ao cinema por William Wyler, com Terence Stamp no principal protagonista, e deu a Fowles a independência financeira para se poder dedicar à escrita a tempo inteiro.
A adaptação de “A Amante do Tenente Francês” ao cinema por Harold Pinter, em 1981, com realização de Karel Reisz e interpretações de Jeremy Irons e Meryl Streep, contribuiu ainda mais para a sua popularidade, e para a fama de escritor: a obra tornou-se rapidamente um livro de culto, estudado em França e nos EUA a nível universitário. Sobretudo entre aqueles que nunca tinham lido um livro de John Fowles e nunca haveriam de ler outro. Vivia em Lyme Regis, numa casa com vista para o canal da Mancha, e era extremamente reservado, queixando-se de ser "perseguido" pelos leitores. «Tenho reputação de ser um homem de letras intratável, e não a tento desmentir. Mas não é verdade, em parte sou eu que a espalho», disse John Fowles em 2003, numa entrevista ao Guardian. Fowles assinou ainda obras como “The Magus” (1966) “The Ebony Tower” (1974), “Daniel Martin” (1977) ou “A Maggot” (1985), bem como alguns títulos de não ficção, ou ainda “Wormholes” (1998), que inclui apontamentos de diário e ensaios, entre outros. Nascido a 31 de Março de 1926, em Leigh-on-Sea, no Essex, Fowles estudou num colégio interno e cumpriu o serviço militar entre 1945 e 47, tendo-se depois formado em Literatura Francesa, em Oxford, e ensinado inglês em Londres, na Grécia e em França. A sua paixão pelas letras e pela cultura francesa torná-lo-ia num autor muito apreciado do outro lado do canal da Mancha, e também nos Estados Unidos o escritor seria mais popular do que na sua nativa Grã-Bretanha. Criticamente posicionado entre o modernismo e o pós-modernismo, os seus trabalhos foram influenciados, entre outros, por Albert Camus e Jean-Paul Sartre.
Neste romance ambientado no século XIX, em plena Inglaterra victoriana, John Fowles retrata uma história de paixão e loucura. Ao passar por uma pequena cidade da costa britânica com a sua noiva, Charles deixa-se seduzir por Sarah Woodruff, mulher de má reputação por ter sido desonrada e abandonada por um tenente francês. Na vila todos lhe apontam o dedo, chamando-lhe “a puta do tenente francês”. O filme estrear-se-ia em Lisboa no dia de Natal de 1981, no cinema São Jorge. Data dessa altura a minha paixão por Meryl Streep, paixão essa que ao longo dos anos foi murchando pouco a pouco, aliás como toda a boa paixão que se preze. Mas aqui a actriz continuava ainda em estado de graça, depois de ter protagonizado a inesquecível série “Holocausto” (1978), já disponível em Blu-ray, e assumido papeis relevantes em “The Deer Hunter/O Caçador”, de Michael Cimino (1978) e “Kramer vs. Kramer”, de Robert Benton (1979). Este seu duplo desempenho como Sarah/Anna seria o arranque a sério para uma carreira fulgurante, mantendo-se ainda hoje como um dos seus desempenhos mais inesquecíveis, embora, curiosamente, seja uma das interpretações que a actriz não preze muito.
Como já referido, “The French Lieutenant’s Woman” é baseado no conhecido e homónimo romance do britânico John Robert Fowles (1926-2005). Harold Pinter (1930-2008), outro britânico célebre (Prémio Nobel da literatura em 2005), escreveu o argumento do que a princípio parecia um romance infilmável, e Karel Reisz (1926-2002), também britânico, mas de ascendência checa, passou para o celulóide as duas histórias da obra, publicada pela primeira vez em 1969. À semelhança desta, em que Fowles aborda os amores proibidos da Inglaterra victoriana segundo a perspectiva cultural dos anos 60, também o filme vai evoluindo entre as duas épocas, ao introduzir um filme dentro do filme. Mike (Jeremy Irons) e Anna (Meryl Streep) são dois actores que mantêm uma relação de adultério, ao mesmo tempo que vão vivendo uma outra história de amor fictícia (localizada em 1897), nos personagens de Charles e Sarah.
Charles Smithson é um naturalista amador, seguidor das teorias darwinianas, que divide as suas atenções entre o estudo de fósseis e a corte à sua noiva, Ernestina Freeman (Emily Morgan), filha de um rico homem de negócios, e com quem planeia casar-se em breve. Mas um dia conhece Sarah Woodruff e tudo se altera. (De realçar a belíssima sequência no paredão do cais, a culminar naquele icónico close-up de Streep. Chama-se "Cobb" esse paredão. Pela perigosidade da situação Meryl Streep não participou das filmagens, pertencendo a um dos directores artísticos a silhueta que se vê ao longe. Foi em estúdio que depois foram filmados os magníficos close-ups, que se tornariam na imagem de marca do filme). Sarah é uma mulher independente, mas estigmatizada por um escandaloso (pelos padrões da época) relacionamento com um tenente da marinha francesa chamado Varguennes, que é casado, e que a teria abandonado depois dela se servir. A população de Lyme, onde a acção se situa, chama-lhe “a tragédia”, ou, ainda pior, “a puta do tenente francês”. É toda essa aura misteriosa que envolve Sarah, aliada ao seu ar frágil e desprotegido, que intriga Charles, vindo a despertar nele uma curiosidade crescente por aquela mulher solitária e proscrita. Pouco a pouco, através de alguns encontros furtivos, a atracção instala-se entre os dois, transformando-se, rápida e naturalmente, numa forte ligação amorosa.
Como não podia deixar de ser (para ser fiel à ideia central do romance de Fowles), Karel Reisz apresenta-nos todo o seu filme em montagem paralela, em que a ficção se confunde com a realidade, entrelaçando-se as duas histórias de amor nos percursos vividos pelos duplos personagens. Daqui resulta um momento único e apaixonante do cinema romântico, meticulosamente construído, e magistralmente servido pelas interpretações brilhantes de Irons e, sobretudo, Meryl Streep, a qual, nunca é demais dizê-lo, tem aqui um desempenho inolvidável, que chega a roçar a perfeição, num jogo de expressões e emoções raramente visto em cinema. A actriz ganharia o BAFTA inglês e o Globo de Ouro na categoria drama, mas perderia o Oscar para Katharine Hepburn (pelo filme “On Golden Pond / A Casa do Lago”). Dá para acreditar?
A música de Mozart faz sobressair a excelente cinematografia de Freddie Francis, e o filme está recheado de sequências inesquecíveis, como a já citada cena do paredão, o monólogo de Sarah a contar a sua história a Charles ou aquela única noite de amor vivida no quarto de hotel de Exceter. Dos três finais que Fowles apresenta no seu romance, dois deles são aqui usados para finalizar o filme. Não são alternativos, mas ocorrem como tudo o resto em simultâneo, permitindo ao espectador, tal como ao leitor do livro, uma escolha pessoal, de acordo com a sua sensibilidade e posicionamento. A opção é, uma vez mais, entre a ficção e a realidade. Mas onde começa uma e termina outra?
(Post by Jota Marques)
terça-feira, 24 de janeiro de 2023
TRILOGIA "HISTÓRIA DOS PALADARES"
A história da evolução do gosto, que levou à educação do paladar e à eleição da gastronomia como uma arte, percorreu um longuíssimo caminho, desde a Idade da Pedra até aos nossos dias. Esse percurso é narrado numa trilogia através de acontecimentos passados nos cinco continentes, episódios históricos e mitos nacionais e universais, personalidades que reflectiram e influenciaram o mundo dos paladares (reis, filósofos, cientistas, escritores) e também de várias centenas de receitas que atravessaram séculos ou mesmo milénios, por via oral, manuscrita ou impressa, através de incontáveis gerações, chegando quase inalteradas aos nossos dias. A vastidão do tema levou a autora a dividir a obra em três volumes, que se completam, embora com perspetivas distintas: o de Sedução, o primeiro, gira em torno dos paladares mais viscerais e que mais apelo fazem aos sentidos; o de Perdição, com prefácio de Virgílio Gomes, um autor consagrado na temática da gastronomia e um dos maiores especialistas portugueses na sua história; e finalmente o terceiro volume dedicado à Redenção, com prefácio do Chef João d’Eça Lima.
O primeiro volume desta trilogia sobre a história dos paladares recebeu inúmeros elogios da crítica e, mais importante ainda, o prémio maior da gastronomia, o Óscar da Gastronomia, como a ele muitas vezes se referem: foi considerado pela Académie Internationale de la Gastronomie o melhor livro de 2021. Mais recentemente, a sua autora, Deana Barroqueiro, viu o seu nome ser novamente consagrado, desta vez com o Prémio Femina 2021, pelo estudo e divulgação da cultura, história e sociedade de matriz portuguesa no estrangeiro e na lusofonia. Mais recentemente, os dois primeiros volumes receberam o galardão de melhores do mundo em 2022, nas categorias de "Séries" e "História da Gastronomia", pela organização Gourmand Best in the World Awards.
(Post by Jota Marques)
sábado, 21 de janeiro de 2023
Breve História da Europa
The Shortest History of Europe
JOHN HIRST
JOHN HIRST nasceu em
Adelaide, Austrália, em 1942. Historiador de renome, Professor Emérito da
Universidade La Trobe, em Melbourne, onde foi responsável pelo Departamento de
História, foi membro da direção do National Museum of Austrália. Escreveu
diversos livros sobre a história do país e foi editor da revista Historical Studies.
Hirst era um intelectual e comentarista social, e escrevia regularmente para
vários veículos e publicações populares. Faleceu em 2016.
A civilização europeia
não é a mais antiga da história universal, porém é única e irrepetível porque
soube impor-se como nenhuma outra antes.
Navegou, lutou,
conquistou, evangelizou. Agiu quando mais ninguém arriscou, pelo que a história
da evolução humana se confunde com a europeia.
Este livro expõe -
resumidamente como poucos -, toda a História da Europa. É um livro obrigatório
em qualquer biblioteca. Hoje, todos os países à face da Terra usam as descobertas científicas e as tecnologias de origem europeia.
«Um pequeno livro sábio e luminoso»
*
Ficha Técnica
Título: Breve
História da Europa
Título original: The
Shortest History of Europe
Autor: John Hirst
Tradução: José
Mendonça da Cruz
Revisão: Rita Bento / Inês Hugon
Capa: Dirty White Design
Imagem da capa: © fevereiro 2013
Mapas: Thomas Deverall,
adaptação de Dirty White Design
ISBN: 9789722066822
Publicações Dom Quixote uma editora do grupo LeYa
«Concebido com graça e economia e no
entanto rico em factos, emoção e pormenor, abrangente, provocador e divertido.»
James Button
«Um livrinho sábio e luminoso.»
Peter
Craven, The Sydney Morning Herald
«Prosa fresca, lúcida e evocativa… O equilíbrio de análise e descrição, generalização e abordagem específica é
maravilhosamente sustentado.»
Wilfred
Priest, Australian Book Review
«Fantástico, o livro no seu todo é um
desafio intelectual permanente.»
The Courier
Mail
~*~
INTRODUÇÃO
Se gosta de saltar
até ao fim dos livros para ver o que acontece, vai gostar deste livro. Os
finais começam pouco depois do começo. Aqui conta-se a história da Europa seis
vezes, de um ângulo diferente a cada vez. Estes textos eram originalmente
preleções destinadas à introdução de estudantes universitários ao estudo da
história europeia. Não comecei pelo princípio para ir até ao fim. Proporcionei
aos estudantes uma rápida visão geral e regressei mais tarde e com mais
pormenor. As primeiras duas preleções são um esboço da totalidade da história
Europeia. É realmente uma breve história. As seis preleções seguintes versam
cada uma delas um tema particular. O objetivo é aprofundar a compreensão
mediante a revisão e a análise mais pormenorizada. Uma história tem um enredo:
um princípio, um meio e um fim. Neste sentido, uma civilização não tem
história. Ficamos interessados numa história que conte a ascensão e a queda de
uma civilização, mesmo que essa queda não represente o seu fim. O meu objetivo
aqui é identificar os elementos essenciais da civilização europeia e verificar
como se foram reconfigurando ao longo dos tempos; mostrar como as coisas novas
tomam forma a partir das antigas; como o antigo permanece e retorna. Os livros
de história ocupam-se de muitos factos e de pessoas. Esta é uma das forças da
história e é ela que nos revela a vida. Mas qual é o significado de tudo
aquilo? Quais as coisas realmente importantes? São estas as perguntas que trago
sempre presentes. Muitos factos e pessoas que entram em outros livros de
história não entram neste. As preleções mais pormenorizadas da segunda parte do
livro param por volta de 1800, e isto simplesmente porque quando preparei estas
preleções havia outra disciplina que tratava da Europa pós-1800. Imagine-se a
quantidade de história que fica de fora! Ocasionalmente, pus os olhos mais
adiante, mas, se a abordagem que escolhi der resultados, deverão reconhecer o
mundo em que hoje vivemos, cujas linhas mestras foram traçadas há muito. Depois
da época clássica, o livro ocupa-se principalmente da Europa ocidental. As
várias partes da Europa não têm importância igual na construção da civilização
europeia. O Renascimento, na Itália, a Reforma, na Alemanha, o governo
parlamentar, na Inglaterra, a democracia revolucionária, em França – estes
acontecimentos são mais determinantes do que as partições da Polónia. Recorri
frequentemente à obra de sociólogos históricos, em particular a Michael Mann e
a Patricia Crone. A Professora Crone não é perita em história da Europa; a sua
especialidade é o islão. Mas num livrinho intitulado Sociedades
Pré-Industriais, ela incluiu um capítulo sobre «A singularidade da Europa». É
um tour de force, uma história completa em trinta páginas, quase tão breve como
a minha mais breve história. Esse capítulo enriqueceu-me com o conceito da
construção e reengenharia do cadinho europeu, tal como o exponho nas duas
primeiras preleções. Eis a medida da minha dívida para com ela. Durante alguns
anos, na La Trobe University, em Melbourne, tive a sorte de me tornar colega do
professor Eric Jones, um grande defensor da abordagem panorâmica da história, e
a cujo livro, «O Milagre Europeu», recorri muitas vezes. Não reclamo para este
livro outra originalidade que não a do seu método. Estas preleções foram
oferecidas em primeiro lugar a estudantes australianos que tinham estudado
demasiada história australiana e sabiam muito pouco da civilização a que
pertenciam.
John Hirst
~*~
1
A EUROPA CLÁSSICA E MEDIEVAL
A civilização europeia é ímpar por ser a única que se impôs ao resto do mundo. Fê-lo mediante conquista e colonização; mediante o seu poder económico; mediante o poder das suas ideias; e porque tinha coisas que todos os outros queriam. Hoje, todos os países à face da Terra usam as descobertas científicas e as tecnologias por elas geradas, mas a ciência foi uma invenção europeia.
No seu começo a civilização europeia era
constituída por três elementos: 1. a cultura da Grécia e Roma antigas 2. o
cristianismo, que é um fruto heterodoxo da religião dos judeus, o judaísmo 3. a
cultura dos guerreiros germanos que invadiram o Império Romano. A civilização
europeia era uma mistura, e a importância disto tornar-se-á evidente à medida
que avançarmos.~*~
O Império Romano
teve início quando Augusto César (r. 27 a.C. - 14 d.C.) se tornou o primeiro
imperador de Roma e chegou ao fim, no ocidente, quando o último imperador
romano, Rômulo Augústulo (r. 475-476 d.C.), foi deposto pelo rei germânico
Odoacro (r. 476 - 493 d.C.). No oriente, ele continuou como Império Bizantino
até a morte de Constantino XI (r. 1449-1453) e a queda de Constantinopla ante
os turcos otomanos em 1453. A influência do Império Romano na civilização
ocidental foi profunda, deixando as suas duradouras contribuições em virtualmente
cada aspecto da cultura ocidental.
Os
germanos eram iletrados e não deixaram registos escritos, dispondo nós,
portanto, de muito pouca informação sobre eles antes da invasão. O melhor
relato – e, provavelmente, não em primeira mão – é do historiador romano
Tácito, e data do século I A.D. Descreve os chefes e companheiros que viviam e
guerreavam juntos, vivendo para guerrear. No campo de batalha, é uma desgraça
para o chefe ser ultrapassado em coragem pelos companheiros e para os
companheiros, não igualar a coragem do seu chefe. Abandonar vivo uma batalha
depois do seu chefe tombar significa infâmia e vergonha para toda a vida.
Defender, proteger e creditar ao chefe os próprios atos de heroísmo – eis para
eles o verdadeiro significado de lealdade. Os chefes combatem pela vitória, os
companheiros, pelo seu chefe. Muita da nobre juventude, estando a sua terra de
nascimento estagnada em prolongada paz, busca deliberadamente outras tribos em
que alguma guerra decorra.
Os
germanos têm desgosto pela paz. A fama ganha-se mais facilmente entre perigos,
só se pode manter um largo corpo de companheiros pela violência e pela guerra.
Os companheiros estão sempre a exigir coisas dos seus chefes: dá-me aquele
ginete ou dá-me aquela sangrenta e vitoriosa lança. Quanto a refeições, de
cariz abundante embora caseiro, contam simplesmente como soldo. Uma tal
liberalidade só pode ser alimentada pela guerra e a pilhagem. Ser-vos-á difícil
persuadir um germano a lavrar a terra e aguardar pacientemente o seu fruto
anual, em vez de desafiar um inimigo e colher o preço dos ferimentos.
Considerará vão e inferior ganhar pelo suor o que pode comprar com sangue. Este
é o povo que, trezentos anos depois, conquistará o Império Romano. Passámos em
revista os três elementos. Tratemos de os resumir. Segundo a visão grega, o
mundo é simples, lógico e matemático. Segundo a visão cristã, o mundo é mau e
só Cristo pode salvar. Segundo os guerreiros germânicos, o combate é divertido.
Como se combinaram os três elementos? Primeiro, consideremos a conexão entre o cristianismo e o mundo greco-romano. As autoridades romanas tentaram, de tempos em tempos, erradicar o cristianismo. Apreenderam as escrituras sagradas, confiscaram os bens da Igreja, prenderam e torturaram cristãos, executaram os que não renegaram a Cristo. Os romanos eram, normalmente, muito tolerantes. Administravam um império composto de várias raças e religiões: desde que os súbditos mantivessem a paz, os romanos estavam dispostos a deixá-los seguir o seu próprio caminho. Podiam autogovernar-se. Podiam praticar a sua própria religião, com uma ressalva: tinham de sacrificar em honra do imperador. Os romanos acreditavam que o seu imperador era uma espécie de deus. O sacrifício que lhes era exigido era trivial: manter um retrato ou uma estátua do imperador e, frente a ela, uma chama. Pegar uma mão cheia de sal e lançá-la sobre a chama. A chama avivava-se. E bastava. Era como saudar a bandeira ou cantar o hino nacional. Mas, como os judeus, os cristãos recusavam fazê-lo, pois diziam que deviam adorar um só Deus, e não tratariam o imperador como manifestação divina alguma. Os romanos costumavam escusar os judeus de homenagearem o imperador. Tinham-nos por embirrentos e volúveis, mas respeitáveis, um povo antigo com os seus templos e o seu deus, ocupando determinada porção do território. Pelo contrário, os cristãos eram seguidores de uma religião nova e cristão podia ser qualquer um em qualquer parte. Os romanos consideravam-nos gente subversiva que era necessário eliminar. Poderiam ter sido bem-sucedidos, se a perseguição tivesse sido sistemática. Mas aconteceu um milagre. Em 313 A.D., um imperador, Constantino, tornou-se cristão, ou, pelo menos, concedeu apoio oficial às igrejas cristãs, pensando que o seu deus poderia velar por ele e pelo império melhor do que qualquer outro. Quando o cristianismo estava ainda longe de ser uma fé maioritária, o chefe de Estado abraçou-o, deu dinheiro às igrejas e reconheceu a autoridade dos bispos. Cinquenta anos mais tarde, outro imperador cristão ilegalizou todas as outras religiões. Quatrocentos anos depois de Jesus ter pregado numa problemática e longínqua província do Império Romano, o cristianismo tornava-se a religião oficial e única do império. Bispos e padres desfilavam pelas cidades e marchavam sobre os campos para destruir os templos pagãos. Eis o primeiro elo entre os três elementos: o Império Romano torna-se cristão. Chegada a esta fase, a Igreja era muito diferente do que fora nos primeiros tempos. No princípio, os grupos de cristãos reuniam-se em locais privados. Agora, três ou quatro séculos depois, havia toda uma hierarquia de autoridades a tempo inteiro e remuneradas: padres, bispos e arcebispos. Um dos bispos – o bispo de Roma – conseguira tornar-se papa e governar a Igreja. A Igreja tinha o seu próprio sistema de leis e os seus próprios tribunais e masmorras para fazer cumprir a lei. A Igreja administrava matérias bem importantes, como o casamento e as sucessões, e não apenas os assuntos próprios da Igreja. A Igreja geria e fazia aplicar o seu sistema de impostos, pois todos estavam obrigados a pagar para a sustentar. Quando o Império Romano ruiu, a Igreja sobreviveu – tinha o seu próprio governo. O papa era uma figura paralela ao imperador, controlava uma hierarquia de autoridades sob o seu mando. Aqui vislumbramos o segundo elo na constituição da mistura: a Igreja torna-se romana.
terça-feira, 17 de janeiro de 2023
A CABANA DO PAI TOMÁS
Edição: Romano Torres (1971)
Tradução: Leyguarda Ferreira
Dimensões: 120 X 185 X 24 mm
Nº de páginas: 318

“A Cabana do Pai Tomás” está escrito no estilo sentimental e melodramático comum nos romances do século XIX e da ficção doméstica (também designada por ficção para mulheres). Estes géneros eram os mais populares na época de Stowe, havia a tendência para ter personagens principais femininas e um estilo de escrita que tocava nas emoções e na simpatia dos leitores. Embora o romance seja diferente de outros, ao focar-se num tema de grande peso como a escravatura, e por ter um homem como figura central, Stowe tenta da mesma forma criar um ambiente de grandes sentimentos nos seus leitores. Apesar da reacção positiva dos leitores, durante décadas os críticos literários subvalorizaram o estilo encontrado em “Uncle Tom's Cabin” e outros romances sentimentais, porque estes livros eram escritos por mulheres e, por isso, eram influenciados pelas "emoções instáveis das mulheres."Uncle Tom's Cabin” indignou sobretudo as pessoas do Sul dos Estados Unidos. Académicos e leitores criticaram o livro por acharem que contém descrições racistas condescendentes das personagens negras do livro, especialmente no que diz respeito às aparências, bem como a natureza passiva do protagonista ao aceitar o seu destino. A utilização no romance de estereótipos comuns sobre os afro-americanos é significativo porque "A Cabana do Pai Tomás" foi o livro mais vendido no mundo durante o século XIX. Como resultado, o livro (juntamente com as suas ilustrações e produções teatrais associadas) desempenharam um papel importante na formação permanente desses estereótipos na mente americana.
O famoso escritor sulista William Gilmore Simms declarou que a história era totalmente falsa, enquanto outros disseram que o romance era criminoso e calunioso. As reacções tomaram diversas formas, chegando ao ponto de serem enviadas cartas ameaçadoras a Stowe (incluindo um pacote contendo a orelha decepada de um escravo). Muitos escritores sulistas, como Simms, escreveram os seus próprios livros com versões opostas à de Stowe. No entanto, em 1985, Jane Tompkins expressou uma visão diferente de “Uncle Tom's Cabin” no seu livro "In Sensational Designs: The Cultural Work of American Fiction.” Tompkins elogia o estilo que tantos outros críticos subvalorizaram, escrevendo que os romances sentimentais mostraram como é que as emoções das mulheres tinham o poder para mudar o mundo para melhor. Mas acrescenta que os romances domésticos populares do século XIX, incluindo "Uncle Tom's Cabin", eram notáveis pela sua "complexidade intelectual, amição e desenvoltura"; e que "Uncle Tom's Cabin" transmite uma "crítica da sociedade americana mais devastadora do que qualquer outra feita por críticos mais conhecidos como Hawthorne e Melville.
Harriet Beecher Stowe nasceu em Litchfield,
Connecticut, a 14 de Junho de 1811. Ela foi a sexta de 11 crianças nascidas de
um padre calvinista, Lyman Beecher. A mãe, Roxana, foi uma mulher profundamente
religiosa que morreu quando Stowe tinha apenas cinco anos. O avô materno de
Roxana era o general Andrew Ward da Guerra Revolucionária. Harriet matriculou-se
no Seminário Feminino de Hartford dirigido pela irmã mais velha, Catharine. Aí
recebeu algo que as meninas raramente obtinham, uma educação académica
tradicional, com foco em clássicos, línguas e matemática. Entre os seus colegas
de classe estava Sarah P. Willis, que mais tarde escreveu sob o pseudónimo de
Fanny Fern. Em 1832, com 21 anos, Harriet Beecher mudou-se para Cincinnati,
Ohio, para se juntar ao pai, que se tinha tornado presidente do Seminário
Teológico Lane. Começa nessa altura a frequentar um salão literário e clube
social. O comércio e o transporte marítimo de
Cincinnati no rio Ohio estavam em fase crescente, atraindo vários migrantes de
diferentes partes do país, incluindo muitos escravos fugitivos, caçadores de
recompensas e imigrantes irlandeses que trabalhavam nos canais e ferrovias do
estado. Em 1829, a etnia irlandesa atacou os negros, destruindo áreas da
cidade, tentando expulsar esses concorrentes em busca de empregos. Beecher
conheceu vários afro-americanos que sofreram esses ataques, e a experiência
deles contribuiu para que ela escrevesse mais tarde sobre a escravidão. Harriet
também foi influenciada pelos "Debates da escravidão". O maior evento
já ocorrido em Lane (faculdade teológica presbiteriana em Walnut Hills, Ohio),
foi a série de debates travados em 18 dias em Fevereiro de 1834, entre os
defensores da colonização e da abolição, vencidos de forma decisiva por
Theodore Weld e outros abolicionistas. Harriet participou da maioria dos
debates. O pai e os curadores, com medo de mais violência dos brancos
antiabolicionistas, proibiram qualquer discussão sobre o assunto. O resultado
foi um êxodo em massa dos alunos de Lane, juntamente com um curador solidário e
um professor, que se mudaram como um grupo para o novo Oberlin Collegiate Institute
depois que seus curadores concordaram, por uma votação acirrada e amarga, em
aceitar estudantes independentemente de "raça" e permitir discussões
de qualquer tópico. Foi no clube literário de Lane que Harriet conheceu o Rev.
Calvin Ellis Stowe, um viúvo que era professor de Literatura Bíblica no
seminário. Vêm-se a casar no seminário em 6 de janeiro de 1836. Durante
a sua vida, Harriet Stowe escreveu 30 livros, incluindo romances, três memórias de
viagens e colecções de artigos e cartas. Foi influente tanto pelos seus
escritos quanto pelas posições e debates públicos sobre as questões sociais da
época. O mais famoso é na verdade o romance “Uncle Tom's Cabin / A Cabana do Pai
Tomás", que alcançou uma audiência de milhões, tornando-se influente nos
Estados Unidos e na Grã-Bretanha, energizando forças antiescravistas no norte
estadunidense, enquanto provocava a raiva generalizada no sul. Harriet Stowe viria a falecer, com 85 anos, no dia 1 de
Julho de 1896 em Hartford, EUA.
(Post by Jota Marques)
quinta-feira, 12 de janeiro de 2023
EU GULOSO ME CONFESSO
Jean Cocteau: “Preceitos Para a Arte da Mesa”
Come a sopa. Endireita-te. Come devagar. Não comas tão depressa. Bebe enquanto comes. Corta a carne em pedaços pequenos. Só sabes torcer-te e engolir. Não brinques com a faca. Não é assim que se pega no garfo. Não se canta à mesa. Despeja o teu prato. Não te balances na cadeira. Acaba o pão. Empurra com o pão. Mastiga. Não fales com a boca cheia. Não ponhas os cotovelos em cima da mesa. Apanha o guardanapo. Não faças barulho a comer. Só sais da mesa quando acabarmos de comer. Limpa a boca antes de me beijar. Esta pequena lista desperta inúmeras recordações da nossa infância… Só muito mais tarde compreendemos que um jantar pode ser uma verdadeira obra de arte.
(Post by Jota Marques)
quarta-feira, 11 de janeiro de 2023
BLACK OUT
(Post by Jota Marques)
terça-feira, 10 de janeiro de 2023
A HONRA PERDIDA DE KATHARINA BLUM ~ HEINRICH BÖLL
“Die Verlorene Ehre der Katharina Blum / A Honra Perdida de Katharina Blum”, é descrito não como um romance, e muito menos «um romance sobre terroristas», mas sim, segundo o próprio autor, «um panfleto disfarçado de narrativa, um escrito polémico», ou, muito simplesmente, «uma história de amor», que opõe uma boa rapariga, uma simples e honesta empregada doméstica que se apaixona casualmente por um homem procurado pela Polícia, a um poderoso jornal sensacionalista: vendo-se arrastada para o centro de uma campanha difamatória, e perante a «violência dos cabeçalhos» e a total destruição da sua vida privada, Katharina Blum é forçada a ir até às últimas consequências para defender a sua honra e dignidade. Retrato ferozmente crítico de uma sociedade alemã dividida e em convulsão, “A Honra Perdida de Katharina Blum” foi originalmente publicada em 1974 e adaptada ao cinema no ano seguinte, tornando-se um dos livros mais célebres do Prémio Nobel, bem como da literatura europeia do pós-guerra. O filme foi dirigido por dois realizadores, Volker Schlöndorff e Margarethe Von Trotta, que também assinaram o respectivo argumento cinematográfico. As interpretações ficaram a cargo de Angela Winkler e Mario Adorf nos principais papéis.
Escritor alemão, Heinrich Böll nasceu a 21 de Dezembro de 1917 na cidade de Colónia. Filho de um escultor e entalhador, descendente de uma família de ingleses que fugiram às perseguições religiosas do seu país. Começou a ir à escola aos sete anos de idade, e estudou sempre em Colónia. Foi um dos poucos jovens a não aderir à Juventude Hitleriana, o que o isolou nos livros e, sobretudo, no cultivo da poesia. Concluindo os seus estudos secundários em 1937, Heinrich Böll começou a trabalhar como aprendiz numa firma editora-livreira e alfarrabista, mas acabou por abandonar o ofício no ano seguinte. Começou então a escrever, ganhando algum dinheiro a dar explicações. Nos finais do ano de 1938 iniciou o cumprimento de um período de trabalho obrigatório, na época um requisito para a admissão em qualquer universidade. Matriculou-se assim na Universidade de Colónia como estudante de Filologias Clássica e Germânica, mas uma vez mais teve que interromper o seu percurso, desta feita ao ser engajado pelo exército na altura em que pairava já a ameaça da guerra. Combateu em várias frentes de batalha e, sobrevivendo às mais horrendas carnificinas, acabou por ser aprisionado pelas tropas norte-americanas em defesa do território alemão, já em 1945. Libertado em Novembro desse mesmo ano, fixou-se nos arredores de Colónia, uma casa parcialmente destruída, que foi reconstruindo, encontrando também tempo e disposição para escrever. Os seus primeiros contos foram publicados a partir de 1946, e o seu primeiro livro, uma novela intitulada “Der Zug War Pünktlich / O Trem Foi Pontual”, foi publicado em 1949. A obra debruçava-se sobre as crueldades que testemunhou antes e durante a Segunda Guerra Mundial, e procurava não só libertar o autor dos seus traumas, como contribuir de certa forma para o esforço de reconstrução do país.
A
partir de 1950 começou a trabalhar a título temporário no Instituto de
Estatísticas de Colónia, onde se manteve até ao ano seguinte, altura em recebeu
um convite para aderir à famosa tertúlia literária Gruppe 47, liderada por
Günter Grass. Tornou-se escritor a tempo inteiro com a publicação de “Wo Warst
Du, Adam?” (1951) e, em 1953, apareceu o seu primeiro grande romance de
sucesso, “Und Sagte Kein Einziges Wort / E Não Disse Nem Mais Uma Palavra”,
obra de tristeza e de esperança, de pobreza e sobrevivência, e em que Böll
utiliza técnicas narrativas originais, característica do seu trabalho. Em “Ansichten
Eines Clownes / Pontos de Vista dum Palhaço” (1963), o autor utiliza uma série
de telefonemas para contar a história de um homem que se aliena da sociedade e
que se faz de parvo para renunciar às suas responsabilidades. “Gruppenbild Mit
Dame / Retrato de Grupo com Senhora” (1971) constituiu também uma inovação
formal, já que Böll se serviu de um conjunto de documentos e entrevistas
fictícias sobre Leni Pfeiffer para descrever as vidas de cerca de meia centena
de outras personagens. A partir de 1968 lecionou na Universidade de Frankfurt,
na Universidade de Praga (1969) e na de Israel 1970). Envolveu-se activamente
na política a partir de 1972, juntando-se aos sociais-democratas de Willy
Brandt. Nesse mesmo ano foi galardoado com o Prémio Nobel da Literatura. Em
1974 publicou “Die Verlorene Ehre der Katharina Blum / A Honra Perdida de
Catarina Blum”. Heinrich Böll viria a falecer em Kreuzau, a 16 de Julho de 1985.
Tinha 67 anos.
(Post by Jota Marques)
segunda-feira, 9 de janeiro de 2023
"OFÉLIA" ~ ARTHUR RIMBAUD
I.
Na onda calma e negra, entre
os astros e os céus
A branca Ofélia, como um
grande lírio, passa
Flutua lentamente e dorme em
longos véus…
– Longe, no bosque, o
caçador chamando a caça.
Mais de mil anos faz que a
triste Ofélia abraça
Fantasma branco, o rio negro
em que perdura
Mais de mil anos: toda noite
ela repassa
À brisa a romança que em
delírio murmura.
Beija-lhe o seio o vento e
liberta em corola
Os grandes véus nas águas
acalentadoras
Sobre os seus ombros o
salgueiro se desola
Reclina-se o caniço à fronte
sonhadora.
Nenúfares feridos suspiram
por perto
Às vezes ela acorda, em
vidoeiro ocioso
Um ninho de onde vem tremor
de um vôo incerto:
– De astros dourados desce
um canto misterioso.
II.
Morreste sim, menina que um
rio carrega
Ó pálida Ofélia, tão bela
como a neve!
– É que algum vento
montanhês da Noruega
Contou que a liberdade é
rude, mas é leve.
– É que um sopro, liberta a
cabeleira presa
Em teu espírito estranhos
sons fez nascer
E em teu coração logo
ouviste a Natureza
No queixume da árvore e do
anoitecer.
– É que a voz do mar
furioso, tumulto impávido
Rasgou teu seio de menina,
humano e doce
– E em manhã de Abril, certo
cavalheiro pálido
Um belo e pobre louco, aos
teus pés se ajoelhou.
E aí o céu, o amor: – Que
sonho, pobre louca!
Ante eles era a neve, desmaiando
à luz
Visões estrangulavam-te a
fala na boca
O Infinito aterrava os teus
olhos azuis!
III.
– E o Poeta diz que sob os
raios das estrelas
Procuras toda noite as
flores em delírio
E diz que viu na água, entre
véus, a colhê-las
Vogar a branca Ofélia como
um grande lírio.
![]() |
| "Ofélia", de Alexandre Cabanel |
I
Sur l’onde calme et noire où dorment les étoiles
La blanche Ophélia flotte
comme un grand lys
Flotte très lentement,
couchée en ses longs voiles…
– On entend dans les bois
lointains des hallalis.
Voici plus de mille ans que
la triste Ophélie
Passe, fantôme blanc, sur le
long fleuve noir
Voici plus de mille ans que
sa douce folie
Murmure sa romance à la
brise du soir.
Le vent baise ses seins et
déploie en corolle
Ses grands voiles bercés
mollement par les eaux
Les saules frissonnants
pleurent sur son épaule
Sur son grand front rêveur
s’inclinent les roseaux.
Les nénuphars froissés
soupirent autour d’elle
Elle éveille parfois, dans
un aune qui dort
Quelque nid, d’où s’échappe
un petit frisson d’aile:
– Un chant mystérieux tombe
des astres d’or.
II
O pâle Ophélia ! belle comme
la neige!
Oui tu mourus, enfant, par
un fleuve emporté!
C’est que les vents tombant
des grand monts de Norwège
T’avaient parlé tout bas de
l’âpre liberté.
C’est qu’un souffle, tordant
ta grande chevelure
À ton esprit rêveur portait
d’étranges bruits
Que ton coeur écoutait le
chant de la Nature
Dans les plaintes de l’arbre
et les soupirs des nuits.
C’est que la voix des mers
folles, immense râle
Brisait ton sein d’enfant,
trop humain et trop doux
C’est qu’un matin d’avril,
un beau cavalier pâle
Un pauvre fou, s’assit muet
à tes genoux!
Ciel ! Amour ! Liberté !
Quel rêve, ô pauvre Folle!
Tu te fondais à lui comme
une neige au feu:
Tes grandes visions
étranglaient ta parole
– Et l’Infini terrible
éffara ton oeil bleu!
III
– Et le Poète dit qu’aux
rayons des étoiles
Tu viens chercher, la nuit,
les fleurs que tu cueillis
Et qu’il a vu sur l’eau,
couchée en ses longs voiles
La blanche Ophélia flotter,
comme un grand lys.

































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