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terça-feira, 20 de dezembro de 2022

FLAG, O CÃO DE UMBERTO D

 

No seu livro “Amados Cães” (edição Oficina do Livro, 2007), José Jorge Letria dá voz ao pequeno canídeo de Umberto D: «Eu sou um rafeiro e chamo-me Flag, mas insisto em que me recordem sempre como o cão de Umberto D, aquele que nunca aceitou que lhe impusessem a separação do seu dono, por maior que fosse a pressão desumana de uma senhoria cruel. Confesso que vi muita gente a chorar quando o filme chegou às salas de cinema. E é natural que isso tenha acontecido, já que se estava em presença de um drama simples e tocante, que coloca em cena temas como a velhice e a solidão. Nem eu nem o actor que desempenhou o papel de Umberto D éramos actores profissionais, mas não nos faltou sensibilidade para mostrarmos de forma comovente aquilo que De Sica queria que os espactadores vissem. E foi precisamente isso que eles viram através dos nossos movimentos e das emoções que conseguimos exteriorizar. Quem se recorda hoje de Flag, o cãozinho neo-realista que preferiu morrer a abandonar o seu dono à tragédia de uma existência sem amparo nem afecto? Por favor, não se esqueçam: o meu nome é Flag e fui o cão do Sr. Umberto D, um homem sem história que viveu comigo uma bela história de amor.»

Estreado em Itália a 20 de Janeiro de 1952 e no Cinema Império, em Lisboa, a 18 de Março de 1953, “Umberto D”, realizado logo a seguir a “Miracolo a Milano”, o maior fracasso comercial da carreira de Vittorio De Sica, permanece ainda hoje como um dos mais dramáticos e perturbadores documentos sobre a solidão humana. Filme em que o cidadão anónimo é captado, num momento da sua vida, com todo o despojamento e isenção que a arte cinematográfica jamais conseguira, “Umberto D” apresenta-nos uma sucessão de instantes que compõem a vivência plena da solidão de um homem.

Se estar só significa ensimesmar-se, então Umberto Domenico Ferrari é realmente um homem só. Mas a sua solidão pertence-lhe tão intimamente que não precisa do “inferno dos outros” para existir: é inalienável e inconsolável, voltada para os actos insignificantes e banais do quotidiano com desprendimento e ironia. Umberto é um homem anónimo a quem nada de excepcional acontece. Velho, cansado e melancólico, contempla a passagem do tempo com olhos tranquilos. Vemo-lo deitar-se, acertar o despertador, levantar-se, conversar com a criada, sair à rua, internar-se no hospital. Acompanhamos esse homem em lugares e instantes, sentimo-lo perto de nós, acariciamos o crepúsculo dessa vida insignificante, para nos rendermos à ternura e à emoção que ela desperta em nós.

Pessoalmente considero “Umberto D” o filme mais perfeito de De Sica. Mas poderá ser melhor entendido se pensarmos também em “Ladri di Biciclette”. Porque “Umberto D”, tal como este último, é a história de uma busca, a história de uma amizade que o desespero vem ensombrar, e do seu reencontro depois de um momento de pânico. A relação do velho reformado com o seu cão, é a mesma que se mostra no outro filme entre o colador de cartazes e o seu filho. Num e noutro é também um momento de desespero que a põe em causa: a bofetada do homem ao filho ecoa na tentativa de suicídio de Umberto com o seu cão. Um chora, o outro esbraceja. Ambos se afastam amedrontados. E ambos regressam numa lancinante e comovente sequência. Se “Ladri di Biciclette” assume a forma de um documento social sobre a miséria e a exploração, “Umberto D” é um documento humano, sobre outra forma de párias da sociedade. Talvez por isso, por se concentrar mais na pessoa, nos gestos, nas banalidades do quotidiano, “Umberto D” tenha resistido melhor ao tempo, e se afirme, para além de escolas e modas, como um comovente testemunho da digninade do ser humano. Uma das perturbantes e belissimas sequências do filme mostra-nos Umberto tentando pedir esmola, estendendo a mão e logo, quando alguém se prepara para lhe depositar uma moeda, virá-la como se verificasse se chovia ou não.

Tal como acima foi dito, e à semelhança de “Ladri di Biciclette”, também “Umberto D” enceta uma busca. Se no primeiro era a procura de um instrumento de trabalho, aqui trata-se de encontrar um lugar onde deixar o cão antes de se cometer o suicídio. O que nos leva a outro belissimo momento, após o longo e vão percurso: o abandono do cão no jardim junto das crianças, a fuga do animal depois da tentativa de suicídio e o esforço de Umberto para o recuperar e ganhar-lhe outra vez a confiança. Juntos de novo, contando apenas um com o outro, são deixados na rua pela câmara, como Chaplin deixava o seu personagem no final dos seus filmes.

(Post by Jota Marques)

sexta-feira, 16 de dezembro de 2022

A AUTOBIOGRAFIA DE LUIS BUÑUEL

 

Título original: "Mon Dernier Soupir" (1982)
Tradução: Tomás Schmitt Cabral
Editora: Fenda  (2006)
ISBN: 989-603-027-8
Nº de páginas: 344

O que impressiona no livro do Luis Buñuel (1900-1983) é a riqueza e a diversidade desta longa vida que atravessa vários países e culturas. Vai da Idade Média aos Tempos Modernos. Passa pelo surrealismo, a guerra de Espanha, Hollywood e o México. É feita de humor, solidão, amizade e imaginação. É vista por um dos olhares mais finos e mais profundos do nosso tempo, de um eremita espirituoso que tem os seus momentos de melancolia. Impressiona-me também, como num romance picaresco espanhol, o prazer da pausa, do episódio isolado e dos bons tempos. Luis pára de repente, senta-se debaixo de uma árvore à beira da estrada e põe-se a falar das coisas importantes: o vinho, o amor, Deus, o acaso, os sonhos e a morte. Para depopis retomar o seu caminho ensolarado. Retrato de um indivíduo excepcional, passeio surpreendente e por vezes perverso através de um século agitado, este livro é também uma afirmação constante: uma moral pessoal rigorosa é a única exigência que possa governar uma vida. Mas como nos tornamos quem somos? Eis uma tentativa de responder a tão velha pergunta. Eis a abordagem de um destino, a aventura secreta de uma vida que, como todas as outras, oscila entre o acaso e a liberdade. (Jean-Claude Carrière)

BUÑUEL POR BUÑUEL

“A Morte Cansada”, de Fritz Lang, foi para mim uma revelação. Quis fazer cinema e até 1927 ou 1928 interessei-me muito pelo meio. Em Madrid, apresentei uma sessão de cinema de vanguarda francês (que na altura não chegava a Espanha) e tive um êxito enorme. No dia seguinte fui chamado por Ortega y Gasset, que me disse: «Se eu fosse jovem, dedicava-me ao cinema.»

Bernhard Goetzke e Lil Dagover em "Der Müde Tod" (1921)

Quase todos os meus filmes têm a frustração como tema. Burgueses que não podem saír de uma casa, gente que quer jantar e é sempre impedida, um tipo que deseja assassinar mas cujos crimes falham… É a distância entre o desejo e a realidade. Tentar e fracassar. Interessa-me sempre ver como as circunstâncias vão fazer mudar as personagens. É como metê-las numa misturadora. Há ocasiões em que se pode comprovar que gente muito inteligente e civilizada, perante uma situação de perigo comum, torna-se brutal, animaliza-se. Alguns melhoram com a experiência, outros pioram. Desconfio da razão e da cultura. No nosso pensamento há imagens que aparecem repentinamente, sem que meditemos nelas. Em todos os meus filmes, até nos mais convencionais, há uma tendência para o irracional, para uma conduta que não se pode explicar logicamente. Não faço cinema de ideias. Tenho, à partida, ideias a que sou fiel, e posso dizer que muitas são as mesmas que tinha aos 28 anos, apesar de terem gradações diferentes. Eu exponho, não imponho essas ideias. E mais que ideias, são imagens, sentimentos. Gosto do que Pilatos disse a Jesus: «O que é a verdade?» Nisso entendo mais Pilatos que Jesus. Simpatizo com os que se esforçam em buscar a verdade; desagradam-me os que falam como se a tivessem encontrado.

Rodagem de "Cela s'appelle l'aurore" (1956)

Gala teve uma influência muito negativa em Dali. Quando ma apresentou, reconheço que não tive boa impressão dela, mas ele estava fascinado. Dali é muito assexuado, quase andrógino, como os anjos. E por causa de Gala acabou por se zangar com muita gente. No seu livro “A Vida Secreta de Dali”, acusava-me de sacrílego e radical. Uma vez, fiz-lhe ver as complicações profissionais que essas palavras me estavam a provocar. Contestou que: «Escrevi um livro para subir a um pedestal, não para te realçar.» Continuámos a falar um bocado e acabei por me ir embora sem lhe ir à cara. Acabou ali a nossa amizade, de forma definitiva.

Gala e Salvador Dali

 Fernando Cesarman, o psicanalista, disse que sou um misógino, que nos meus filmes a mulher fica sempre de rastos. Não sei, acho que não sou misógino. Talvez entenda pouco as mulheres. Também é verdade que me encontro muito mais à vontade entre homens do que entre mulheres. A ambiguidade está sempre a pairar por aí. Nos meus filmes, o meu objectivo não é pôr coisas que tanto podem interpretar a preto como a branco. Seria fazer batota. O que sei é que qualquer homem em determinadas situações tem impulsos contraditórios. Eu deixo a interpretação ao espectador. Quanto à minha, talvez tivesse de me psicanalisar para saber onde estão os detalhes que me atraíram e comoveram. O mal é que, segundo um psicanalista, eu sou não-psicanalisável. Há um elemento de mistério, de dúvida, de ambiguidade. Sou sempre ambíguo. Identifico-me com a ambiguidade, porque rompe com as ideias feitas, imutáveis. Racionalmente não acredito em milagres, mas posso fingir que acredito porque me interesso pelo que vem a seguir. Além disso, estou a trabalhar no cinema, que é uma máquina de fabricar milagres.

"L'âge d'or" (1930)

Não me preocupo com as minhas obsessões. Porque cresce a erva no jardim? Porque está adubada para isso. Posso ter obsessão pelos pés ou pelos insectos, mas suponho que não me vão meter na cadeia por isso. Na realidade, os pés e os sapatos, de homem ou de mulher, deixam-me indiferente. Atrai-me o fetichismo do pé como elemento pitoresco e de humor. A perversão sexual repugna-me, mas pode atrair-me intelectualmente. Há quem diga: "Aqui está um salto alto que simboliza o pénis, segundo este ou aquele parágrafo de Freud." É absurdo. Esta psicologia fácil chega a ser risível. Freud abriu uma janela maravilhosa para o interior do homem, mas o freudismo converteu-se numa igreja com resposta para tudo.

"Un chien andalou" (1929)

Entre os meus filmes preferidos figuram o filme inglês “Dead of the Night” (“A Dança da Morte”), delicioso conjunto de várias histórias de terror, e “White Shadows in the South Seas” (“Sombras Brancas nos Mares do Sul”), que me pareceu muito superior a “Tabu” de Murnau. Adorei “Portrait of Jennie” (“O Retrato de Jennie”) com Jennifer Jones, uma obra desconhecida, misteriosa e poética. Declarei nalgum sítio o meu amor por esse filme e Selznick escreveu-me a agradecer. Detestei “Roma Città Apperta” (“Roma Cidade Aberta”) de Rosselini. Achei que o contraste fácil entre o padre torturado e, na sala contígua, o oficial alemão bebendo champanhe com uma mulher no colo era um procedimento repugnante. Gostei de “The Treasure of the Sierra Madre” (“O Tesouro da Serra Madre”) de John Huston, que foi filmado muito perto de San José Purúa. Huston é um grande realizador e uma pessoa muito afável. Foi em grande parte graças a ele que “Nazarin” foi apresentado em Cannes.

Jennifer Jones e Joseph Cotten em "Portrait of Jeannie" (1948)

Gosto de “Paths of Glory” (“Horizontes de Glória”) de Kubrick, “Roma” de Fellini, “O Couraçado Potemkine” de Eisenstein, “La Grande Bouffe” (“A Grande Farra”) de Marco Ferreri, monumento hedonístico, grande tragédia da carne, “Goupi Mains Rouges” de Jacques Becker e “Jeux Interdits” (“Brincadeiras Proibidas”) de René Clément. Gostei muito dos primeiros filmes de Fritz Lang, Buster Keaton,  e dos Marx Brothers. Gosto muito dos filmes de Renoir até à Guerra, e de “Persona” (“A Máscara”) de Bergman. De Fellini, gosto também de “La Strada” (“A Estrada”), “Le Notti di Cabiria” (“As Noites de Cabíria”), “La Dolce Vita” (“A Doce Vida”). Nunca vi “I Vitelloni” (“Os Inúteis”) e tenho pena. Em contrapartida, em “Casanova” saí da sala muito antes do fim. De Vittorio de Sica gostei muito de “Sciuscà”, “Umberto D” e “Ladri di Biciclette” (“Ladrões de Bicicleta”), onde ele conseguiu transformar uma ferramenta de trabalho numa vedeta. Foi um homem que conheci e de quem me sentia muito próximo.

Gostei muito dos filmes de Eric von Stroheim e de Sternberg. Na altura, achei “Underworld” (“Vidas Tenebrosas”) soberbo. Detestei “From Here to Eternity” (“Até à Eternidade”), um melodrama militarista e nacionalista que infelizmente teve muito sucesso. Gosto muito de Wajda e dos filmes dele. Nunca o conheci, mas há muito tempo, no festival de Cannes, ele declarou publicamente que os meus primeiros filmes lhe deram vontade de fazer cinema. Lembra-me a admiração que eu próprio sentia pelos primeiros filmes de Fritz Lang e que determinou o rumo que dei à minha vida. Acho comovente esta continuidade secreta que há entre os filmes, entre os países. (…) Há quatro anos que não vou ao cinema por causa da minha vista, da minha surdez, do meu horror ao trânsito, às multidões. Nunca vejo televisão. Às vezes, a partir das cinco recebo alguns amigos, converso. Janto às sete com a minha mulher e deito-me muito cedo.

Jeanne Moreau e Georges Géret em "Diário de uma criada de quarto" (1964)

Fui católico, mas perdi a fé aos 17 anos. Perdi-a antes até de ler Darwin. A minha dúvida começou pelas ideias sobre o Inferno e a justiça de Deus. Mas não quer dizer que uma cerimónia em honra da Virgem, com as noviças nos seus hábitos brancos e o seu aspecto de pureza, não me possa comover profundamente. Como posso negar que estou marcado culturalmente, e espiritualmente, pela religião católica? (…) A conclusão a que chego para meu uso próprio é muito simples: acreditar e não acreditar são a mesma coisa. Se me provassem neste instante a luminosa existência de Deus, o meu comportamento não se alteraria em absolutamente nada. Não posso acreditar que Deus me vigia constantemente, que se encarrega da minha saúde, dos meus desejos, dos meus erros. Que sou eu para ele? Nada, a sombra de uma lama. A minha passagem é tão rápida que não deixa qualquer marca. Sou um pobre mortal, não conto nem no espaço nem no tempo. Deus não trata de nós. Se existe, é como não existisse. Em tempos resumi este raciocínio na seguinte fórmula: "Sou ateu, graças a Deus." Uma fórmula contraditória apenas em aparência.


Acredito mais no indivíduo que na sociedade. Nesta época científica e tecnológica, o homem está moralmente como na idade das cavernas. Já não acredito no progresso social. Houve uma época em que as minhas simpatias iam na direcção do movimento colectivo, mas agora sou um céptico bem intencionado. Posso pensar que o comunismo continua a ser o mais firme pilar da revolução mundial, apesar de, na verdade, eu já estar fora dessa luta. Procuro simplesmente não atraiçoar as minhas convicções de juventude, fazer-lhes o menor dano possível. E tento que os meus filmes sejam moralmente honrados.

Rodagem de "Belle de Jour" (1967), com Catherine Deneuve

Para mim, a fornicação tem algo de terrível. A cópula, considerada objectivamente, parece-me ao mesmo tempo risível e trágica. É o mais parecido com a morte: os olhos em branco, os espasmos, a baba. E a fornicação é diabólica: vejo sempre nela o Diabo. (…) Uma mulher com uma chemise negra, meias com ligas e sapatos de salto alto, é mais erótica que uma mulher nua. O nu total é geralmente puro, não é erótico. Não sou adverso ao erotismo, mas sim à pornografia, que é a fisiologia do erotismo. E sou contra a pornografia porque acredito no amor.

A liberdade é um fantasma. Pensei nisto seriamente e acredito nisso desde sempre. É um fantasma de névoa. O homem persegue-o, acha que o agarrou, e só lhe fica um pouco de névoa nas mãos. Para mim, a liberdade sempre se expressou nesta imagem. (…) Sade só cometia os seus crimes na imaginação, como forma de se libertar do desejo criminal. A imaginação pode permitir-se todas as liberdades. Outra coisa é a realização do acto. A imaginação é livre; o homem não. Uma coisa é a imaginação e outra a vida. Em termos de imaginação, ninguém tem nada a ensinar-me, porque sei tudo, espero tudo. Com a vida é diferente. Na realidade nunca fui um homem de acção, mas na imaginação, isso sou. Ao mesmo tempo que cumprimento uma pessoa, na realidade posso ter a fantasia de matá-la. A imaginação é o único terreno em que o homem é livre. A realidade, sem a imaginação, é metade da realidade. Detesto a proliferação da informação. A leitura de um jornal é a actividade mais angustiante do mundo. Se fosse ditador, limitaria a imprensa a um único jornal e a uma única revista, ambos estritamente censurados. Esta censura seria apenas aplicável à informação, a opinião permaneceria livre. A informação-espectáculo é uma vergonha. Os títulos enormes – no México batem recordes – e as manchetes sensacionalistas dão-me vontade de vomitar. Todas aquelas exclamações acerca da miséria alheia para vender um pouco mais de papel!

Rodagem de "Tristana" (1970)

Com a idade que tenho, deixo os outros falar. A minha imaginação ainda aqui está , na sua inatacável inocência sustentar-me-á até ao fim dos meus dias. Horror à compreensão. Felicidade de acolher o inesperado. Estas tendências antigas acentuaram-se ao longo dos anos. Vou-me retirando pouco a pouco. O ano passado calculei que em seis dias, que equivalem a cento e quarenta e quatro horas, só tinha conversado com amigos durante três horas. O resto do tempo, solidão, devaneio, um copo de água ou um café, aperitivo duas vezes ao dia, uma recordação que me apanha desprevenido, uma imagem que me visita, uma coisa leva à outra, e já é noite. Não sou filósofo, nunca tive capacidade de abstracção. Se alguns espíritos filosóficos, ou aqueles que assim se consideram, sorriem perante o que lêem, fico contente por tê-los feito passar um bom bocado. É um pouco como estar de regresso ao colégio dos Jesuítas de Saragoça. O professor aponta para um aluno e diz: "Refute-me o Buñuel!" E está feito em dois minutos.

De algum tempo para cá, a ideia da morte tornou-se familiar. Desde os esqueletos levados pelas ruas de Calanda aquando das procissões da semana santa, a morte sempre fez parte da minha vida. Nunca quis ignorá-la ou negá-la. Mas quando se é ateu como eu, não há muito a dizer acerca da morte. Há que morrer com o mistério. Por vezes penso que gostaria de saber, mas saber o quê? Não se sabe durante nem depois. Depois do todo, o nada. Nada nos espera senão a podridão, o cheiro adocicado da eternidade. Para o evitar, talvez peça para ser incinerado.

(Post by Jota Marques)

domingo, 27 de novembro de 2022

O FIM DA AVENTURA

Escritor inglês nascido a 2 de Outubro de 1904 em Berkhamsted, e falecido a 3 de Abril de 1991, na Suiça, Henry Graham Greene, viveu um infância difícil, foi jornalista (1926-1929), crítico de cinema (1935-1939) e director literário de vários jornais e editoras. Formou-se na Universidade de Oxford, e começou a sua carreira como jornalista trabalhando como repórter e subeditor do The Times. Publicou cerca de 60 romances. Ao longo da sua vida, Greene esteve em vários países bem distantes da Inglaterra, aos quais ele se referia como lugares selvagens e remotos do mundo. Em 1935, visitou África (especialmente a Serra Leoa e a Libéria), onde, além de buscar material para os seus artigos no The Times e para um futuro livro ("Journey Without Maps"), também prestou serviços à Anti-Slavery and Aborigines' Protection Society. As viagens levaram-no a ser recrutado pelo MI6, o serviço secreto britânico, por meio da sua irmã, Elisabeth, que trabalhava para a organização, tendo sido enviado para a Serra Leoa durante a Segunda Guerra Mundial. Muitos dos seus romances, a partir de então, tiveram como tema ou pano de fundo a espionagem. Nos seus romances, o escritor retrata pessoas que encontrou e lugares onde viveu. O seu primeiro livro de sucesso foi "O Expresso do Oriente" (1932). Entre outras obras, incluem-se "O Poder e a Glória" (1940), "O Nosso Homem em Havana" (1958), ou "O Factor Humano" (1978). Muitas das suas obras foram adaptadas ao cinema. Outra temática frequente nos seus livros é a religião. Tendo-se convertido ao catolicismo em 1926, os dilemas morais e espirituais de sua época eram representados por intermédio das suas personagens. Graham Greene foi considerado o maior 'escritor católico' da Grã-Bretanha, apesar da sua resistência em ser retratado dessa maneira. Em 1937, Greene era editor da revista literária britânica Night and Day e escreveu uma crítica sobre o filme "Wee Willie Winkie" (1937), interpretado por Shirley Temple, então com oito anos. O texto assinalava a coqueteria da pequena actriz e o efeito que ela provocava entre homens de meia idade e clérigos. Em consequência desse comentário, Greene foi alvo de um processo judicial movido pela Twentieth Century Fox. Temendo ser preso, o escritor refugiou-se no México, país que não permitia a extradição — e que inspiraria o seu livro "The Power and the Glory".

Título original: "The End of the Affair" (1951)
Editora: ASA Literatura (Fevereiro de 1995)
Tradução e Prefácio: Jorge de Sena
Dimensões: 130 X 195 X 20 mm
ISBN: 972-411-524-0
Nº de páginas: 270

Neste "O Fim da Aventura", a relação amorosa do romancista Maurice Bendrix com Sarah Miles inicia-se nos tempos turbulentos do Blitz, em Londres. Mas, um dia, sem explicação, Sarah termina abruptamente a ligação entre ambos. Parecia impossível que pudesse existir um rival no coração de Sarah, mas mesmo assim, dois anos depois, levado por um ciúme e uma dor obsessivos, Bendrix contrata um detective privado, Parkis, para a seguir e descobrir a verdade. Entre os mais importantes escritores do século XX, Graham Greene sempre foi apontado como referência moral. Viajante incansável, colheu as simpatias de socialistas e de católicos, embora tenha sido um católico crítico. São muitos os que louvam a sua arte: a capacidade rara de nos surpreender e comover com romances que aliam o saber contar à argúcia com que capta o que de mais profundo e de mais humano existe em nós. "O Fim da Aventura" é um dos seus grandes romances.

«Diz-se da eternidade que é,
não uma extensão do tempo,
mas uma ausência dele.
Os amantes ciumentos são mais respeitáveis
e menos ridículos que os maridos ciumentos.
Os amantes traídos são trágicos,
nunca são cómicos.»
(Graham Green)

Maurice: «Tenho ciúmes desta meia»
Sarah: «Porquê?»
Maurice: «Porque ela faz o que eu não consigo: Beijar-te a perna toda. E também tenho ciúmes deste botão.»
Sarah: «Pobre, inocente botão.»
Maurice: «Não é nada inocente, está contigo o dia inteiro. E eu não.»
Sarah: «Suponho que também tenhas ciúmes dos meus sapatos?»
Maurice: «Sim.»
Sarah: «Porquê?»
Maurice: «Porque eles te levam para longe de mim.»


Esta é a segunda e feliz adaptação ao cinema de “The End of the Affair”, um dos melhores romances de Graham Greene, cuja narrativa semi-autobiográfica dramatiza a relação do autor com Catherine Walston, a amante de Greene na vida real que faleceu com 62 anos em 1978. Segundo o biógrafo do escritor, Michael Shelden, Catherine não permitiu que Greene a visitasse antes de morrer por não querer que ele a visse no adiantado estado de doença em que se encontrava. Em 1955, Edward Dmytryk fez a primeira versão com Van Johnson e Deborah Kerr nos principais papéis. Neil Jordan pode agora considerar-se com mais sorte ao poder contar com Ralph Fiennes e sobretudo Julianne Moore para os papeis dos dois amantes. Sem esquecer Stephen Rea, que compõe de igual modo magistral a figura do marido enganado cujo amor pela mulher é capaz de aguentar qualquer sacrifício.

Esta é uma história de amor. Do amor das personagens, do amor dado pelos intérpretes, do amor pelos curtos segundos que só o cinema parece conseguir filmar. Mas todo o filme gira também à volta da culpa, essa consequência natural de um catolicismo tortuoso, tão comum na época e uma das imagens de marca dos romances de Greene. Culpa de amar e ser amado, culpa de desejar a felicidade por cima das convenções mundanas. Os personagens movem-se em terrenos desgastados pela moral vigente, que faz cansar e até desesperar quem procura libertar-se da tutela do divino e viver simplesmente uma vida terrena, em toda a sua plenitude.

Neil Jordan confirma mais uma vez o amor com que dirige os seus actores cujos desempenhos são essenciais na elegante fluidez deste filme admirável. A realização chega a atingir patamares poéticos de um lirismo raro no cinema da actualidade, apesar de não se coibir de mostrar o lado mais erótico da paixão. No fundo é todo um mosaico de emoções que está subjacente à relação amorosa e que Jordan filma de maneira exemplar, fazendo lembrar por vezes o classicismo de um “Brief Encounter”, de Lean. O recurso a flashbacks repetidos mas vistos por perspectivas diferentes dá ainda mais a noção da inquietude dos sentimentos que envolvem cada um dos dois amantes. "The End of the Affair" é também uma grande produção inglesa, com os seus específicos valores: reconstituição histórica imaculada, desempenhos sólidos do elenco, fotografia, música e montagem de primeirissima grandeza, tudo a funcionar em pleno para um objectivo maior.

Apesar da atmosfera romanesca e de nostalgia com que os cenários recriam a Londres dos anos da Guerra (a que não será estranha a bela partitura musical de Michael Nyman), a cidade como que se situa em segundo plano face à claustrofobia revelada pela câmara de filmar em volta dos dois amantes. Nunca vi a versão dos anos 50 (uma obra menor ao que tenho ouvido dizer) mas li o livro de Greene, que me foi oferecido por uma rabiteza especial, pouco tempo depois de termos visto o filme juntos, numa sala do Monumental-Saldanha. E Jordan consegue efectivamente extrair do romance a complexa teia de sentimentos descrita pelo escritor. Muita coisa é diferente mas um filme não é literatura, vai muito para lá das palavras escritas em papel. Julgo apenas que a cena final do “milagre” (a mancha que desaparece da face da criança) é desnecessária, até porque semi-ausente no romance (o assunto é abordado mas sem o ênfase colocado no filme), podendo erradamente ser interpretada como uma espécie de “recompensa” pelo sacrifício da relação amorosa.


O único final apropriado é mesmo todo o ódio de Bendrix para com um Deus que lhe retirou o grande amor da sua vida: «Não tenho paz, e não tenho amor, a não ser só por ti, Sarah. Sou um homem de ódio. Deus, conheço a tua astúcia. És Tu quem nos leva a uma altura, de onde nos ofereces o universo inteiro. E és um demónio porque nos tentas a saltar. Eu, porém, não quero a tua paz, nem quero o teu amor. Eu queria algo muito simples e muito fácil: queria ter Sarah a vida inteira, e Tu levaste-a. Com os teus grandes desígnios arruínas a felicidade humana como o ceifeiro, nos campos, destrói um ninho de ratos. Odeio-Te, Deus, odeio-Te como se existisses. Já fizeste bastante, já me roubaste bastante, sinto-me por demais cansado e velho para aprender a amar. Deixa-me em paz para sempre!»

Termino com a citação de parte de um artigo publicado por Linda Santos Costa na revista “Leituras” do jornal Público de 8 de Abril de 1995: «... Que faz da história de amor em tempo de guerra, que é “O Fim da Aventura”, um romance que nos fascina e comove até às lágrimas? Explicá-lo seria o mesmo que explicar o amor, cedendo à tentação de o reduzir às secreções internas que regulam a intensidade dos impulsos passionais e levam a falar de uma “química do amor”, pois há muito, nesta história, que releva da forma como está construída: a sábia alternância de pontos de vista, o modo gradual e circular como nos é dado o acesso à “verdade” dos acontecimentos, a construção da intriga, com o seu quê de policial, que nos faz estar suspensos das páginas a vir, temendo (e desejando) que o enigma jamais seja desvendado.»

 (Post by Jota Marques)

sábado, 26 de novembro de 2022

"LOLITA" ~ VLADIMIR NABOKOV

 
Editora: Editorial Teorema Lda. (2009)
Tradução: Fernanda Pinto Rodrigues
ISBN: 978-846-128-498-6
Dimensões: 140 X 215 X 20 mm
Nº de páginas: 280

Editora: Relógio D'Água (Julho 2013)
Tradução: Margarida Vale de Gato
ISBN: 978-989-641-360-6
Dimensões: 150 X 232 X 17 mm
Nº de páginas: 360

 Autor norte-americano de origem aristocrática russa, nascido em São Petersburgo, a 22 de Abril de 1899 e falecido em Montreux, na Suiça, a 2 de Julho de 1977, Vladimir Nabokov foi, para além de escritor, entomologista, professor de literatura e criador de problemas de xadrez. O pai era professor na Escola Imperial de Jurisprudência e editava uma revista de oposição liberal. Nos anos de formação, Vladimir beneficiou de uma cultura cosmopolita. As perceptoras francesas e inglesas sucediam-se e aprendeu o inglês antes do russo. A sua vida amorosa foi precoce e variada: aos 5 anos, durante uma estadia em Roma e Nápoles, apaixonou-se por uma jovem italiana. Aos 7 anos, Vladimir inicia-se no estudo dos lepidópteros, actividade que não mais abandonaria e fez o seu nome constar em enciclopédias: «Se o meu primeiro olhar era para o Sol, o meu primeiro pensamento era para as borboletas que ele fazia surgir.» Quando aos 10 anos passeava com o pai em Moscovo, encontrou Tolstói. Começou nessa época a ler na sua biblioteca familiar Jules Verne, Conan Doyle, Kipling, Joseph Conrad, Oscar Wilde, Pushkin e o próprio Tolstói. Aos 16 anos, em plena Guerra Mundial, Vladimir conhece Valentina, o seu primeiro grande amor. Em 1916 publica um poema na revista russa Vestnik Evropy. A revolução democrática de Fevereiro de 1917 faz com que o pai seja nomeado ministro sem pasta no governo de Kerensky. Vladimir encontra-se então na Finlândia. Mas depois da revolução bolchevique a família é enviada para a Crimeia, conhecendo em breve o exílio que marcará toda a obra de Nabokov, mais pela nostalgia dos cenários perdidos da infância do que pela súbita perda da sua fortuna. Os Nabokov começam por partir para Atenas e depois para Londres. É então que Vladimir frequenta o Trinity College, em Cambridge, onde segue cursos de Zoologia, Línguas Modernas e Medievais, começando também a escrever poemas em russo.

Em 1920, depois de um período em França, a família fixa-se em Berlim, onde o pai de Nabokov é assassinado por dois russos de extrema-direita. Em 1925 casa-se com Véra Slonim e começa a escrever o seu primeiro romance, "Maschenka", a que se segue "Glória". No início da II Guerra Mundial, preocupado com as perseguições que a mulher, de origem judaica, poderia sofrer, Nabokov parte para os Estados Unidos da América, adquirindo a nacionalidade americana em 1945. Começa a escrever em inglês, mantendo, nas obras deste período, o fundo fantástico, a visão irónica da vida quotidiana e a mestria formal que já havia demonstrado, almejando levar a cabo um retrato da sociedade norte-americana através das suas convenções culturais e posturas perante o sexo. São dignas de nota as narrativas: "Invitation to a Beheading", "The Real Life of Sebastian Knight", "Lolita", um grande êxito editorial transposto para o cinema por Stanley Kubrick e cujo argumento se baseia nos amores de um homem adulto por uma adolescente ou "Speak Memory". Nabokov adaptou-se o melhor possível aos EUA, tendo chegado a declarar que se sentia «tão americano como o mês de Abril no Arizona.» É com "Lolita", quando já tinha 56 anos, que a sua notoriedade é finalmente reconhecida, devido ao escândalo que o romance despoleta nos EUA e também na Europa. O livro havia sido salvo num dia de 1950 pela mulher Véra, quando Nabokov pretendeu queimar os primeiros capítulos, incapaz de resolver algumas dificuldades técnicas. Conforme refere Ana Filipa Rodrigues, «Nabokov conseguiu criar uma obra em que na mesma frase nos consegue repudiar e maravilhar com o que estamos a ler. Com uma escrita magnífica, como só os grandes escritores conseguem alcançar conhecemos Humbert e a sua ninfeta Lolita. Com um o tema tão sensível, Nabokov criou um clássico intemporal de desejos ocultos e proibidos, de personalidades fortes (como a da Lolita) e fracas (como a de Humbert) de vidas disfarçadas de normalidade, um livro que queremos desistir ao fim do primeiro capitulo, mas que nos agarra até ao ultimo, um livro que se torna uma luta interior para o leitor. "Lo-Li-Ta. Era Lo, só Lo, pela manhã, com seu metro e quarenta e sete e uma só peúga. Era Lola de calças, Dolly na escola. Era Dolores no tracejado onde assinava o nome. Mas nos meus braços era sempre Lolita.» Em 1961, já famoso, Nabokov regressa com a família à Europa, tendo-se instalado na Suiça, em Montreux, no Palace Hotel, numa série de quartos que comunicavam entre si, e onde tudo tinha um carácter provisório. Não mais abandonaria a cidade, vindo a falecer em Junho de 1977.

***

Na introdução ao livro, por John Ray Junior, doutor em Filosofia, refere-se: «Considerado simplesmente como romance, "Lolita" trata de situações e emoções que permaneceriam irritantemente vagas para o leitor se a sua expressão se tivesse estiolado pelo recurso a evasivas banais. É verdade que não se encontra em todo o livro um único termo obsceno, de tal sorte que o robusto filisteu, condicionado pelas modernas convenções a aceitar sem repugnância a prodigalidade de palavras porcas de um romance banal, ficará absolutamente escandalizado com a sua ausência aqui. Se, no entanto, para tranquilidade da consciência desse paradoxal moralista, se tentasse diluir ou omitir cenas a que um certo tipo de mentalidade poderia chamar "afrodisíacas", o melhor seria desistir por completo da publicação de "Lolita", pois as cenas que absurdamente se poderiam acoimar de prenhes de conteúdo sensual próprio são o mais estritamente funcionais possível no desenrolar de uma história trágica que se encaminha, inabalável e resolutamente, para nada menos do que uma apoteose moral. Os cínicos poderão dizer que a pornografia comercial afirma exactamente o mesmo e os entendidos poderão ripostar que a apaixonada confissão que Humbert Humbert descreve com tanto desespero, e que, se o nosso dementado diarista tivesse, no fatal Verão de 1947, consultado um psicoterapeuta competente, não haveria tragédia nenhuma - mas, nesse caso, também não haveria este livro.»



O FILME DE STANLEY KUBRICK (1962)


Lolita Haze: «I'm really sorry that I cheated so much.
                   But I guess that's just the way things are»

Apresentado pela primeira vez no Festival de Veneza de 1962 (onde concorreu ao Leão de Ouro), “Lolita” começou por não atraír o grande público, devido sobretudo ao inevitável paralelo entre o filme e o livro, comparação sem grande significado que no entanto perdura até aos nossos dias. Tendo em conta o global desinteresse fílmico de Kubrick pelos problemas da sentimentalidade amorosa, é bastante evidente e significativo o motivo da escolha: o romance de Nabokov desenvolve com ofuscante clareza aquele que é o tema dos temas kubrickiano, aquele a partir do qual se produzem todos os seus filmes: a obsessão. O facto de Kubrick apostar muito mais no lado subjectivo dessa obsessão, por oposição ao seu objecto físico, ou seja, ao corpo adolescente de Lolita (Sue Lyon) evidencia já o afastamento do conteúdo do romance, enquadrando-se todo o filme numa atmosfera onírica, onde a subtileza é a nota dominante das relações entre Humbert (James Mason, num dos grandes papeis da sua carreira) e as pessoas à sua volta. A relação “normal” entre homem e mulher sempre primou pela ausência no cinema de Kubrick, e esta “Lolita” é um bom exemplo disso. A paixão de Humbert situa-se num plano acima do erotismo e da permissividade, indiferente à idade da “ninfa”, e enquadrando-se num desvio à norma social institucionalizada. É uma espécie de agonia amorosa (que faz lembrar o “Amor-Louco” de Breton), uma exaltação profundamente maior do que aquela que a imaginação pode criar.

Magistralmente interpretada por Shelley Winters, Charlotte Haze, a mãe de Lolita, é o polo atractivo de toda a aversão de Humbert pelos estereotipos presentes no modo de vida americano dos anos 50. Mas enquanto Nabokov não vai além de um certo sarcasmo no modo como descreve essa sociedade, Kubrick apodera-se da figura de Charlotte (e de todos os preconceitos pequeno-burgueses que ela representa) para dar mais ênfase ao tormento de Humbert. Será nesse ambiente de desejos recalcados que o professor se deixará subjugar pela jovem teenager, iniciando o percurso sem retorno que o conduzirá à solidão e à mais negra decrepitude moral. Já as diversas máscaras de Clare Quilty (espantoso Peter Sellers) estão inteiramente na órbita do imaginário repressivo-depressivo de Humbert. As múltiplas aparições de Sellers-Quilty são física e verbalmente grotescas, espelhando toda a culpabilidade de Humbert, e conferindo o peso da realidade e uma dimensão concreta ao delírio da perseguição de que Humbert é vítima. Digamos, para simplificar, que Quilty representa o lado transgressor de Humbert, a materialização dos seus mais secretos desejos.


Uma das razões de Kubrick ter escolhido Sue Lyon (de entre cerca de 800 candidatas) teve a ver com o tamanho dos seios da jovem actriz, para evitar que a personagem denotasse a pouca idade com que Nabokov a descrevera no livro (12 anos). Além disso, Kubrick teve o cuidado de acrescentar dois anos à sua Lolita (Sue Lyon também tinha a mesma idade - 14 anos -  na altura da rodagem), de modo a aproximá-la mais da adolescência e evitar ao máximo a conotação do filme com o universo pedófilo (estigma do qual no entanto não se viria a livrar). O filme de Kubrick é considerado ainda hoje como um objecto estranho na sua filmografia. Mas só poderá estar convicto dessa opinião quem passar por “Lolita” apenas um olhar apressado e superficial. Na verdade, todos os temas caros ao realizador estão já contidos nesta adaptação da obra de Nabokov. O argumento, da autoria do próprio escritor, mas substancialmente alterado por Kubrick (sobretudo no carácter de Peter Sellers, Clare Quilty, que no livro não tem a importância central com que aparece no filme, até a própria Lolita passou de morena a loura) viria a ser nomeado para o Oscar da Academia, mas seriam os Globos de Ouro a perspectivarem o essencial do filme, ao fazerem recaír quatro nomeações sobre o realizador e os três actores (Mason, Winters e Sellers) que foram os principais responsáveis pela envergadura e longevidade da obra.

(Post by Jota Marques)

terça-feira, 15 de novembro de 2022

ZORBÁS ~ NIKOS KAZANTZAKIS

«Ensina-me a dançar. Ensinas?» Anthony Quinn, na pele do inesquecível Zorba, responde a Alan Bates: «Dançar? Disseste dançar? Anda, rapaz.» Então entra a música de Mikis Theodorakis e o resto já se sabe. Dançam. Zorba ri, transborda vida. A última cena do filme "Zorba, o Grego (Alexis Zorbás)", de Michael Cacoyannis (1964), a partir da obra homónima do escritor grego Nikos Kazantzakis, é talvez uma boa porta para a sua extensa obra. Zorbás é uma das criações mais inesquecíveis da literatura - uma personagem da estatura de um Falstaff ou de um Sancho Pança. A sua idade avançada não diminuiu o entusiasmo e o deslumbramento com que acolhe tudo o que a vida lhe traz, esteja ele a trabalhar na mina, a confrontar os monges loucos de um mosteiro na montanha, a embelezar as histórias da sua vida ou a fazer amor para evitar o pecado. Zorbás conhece todas as alegrias e tristezas da vida, e através do seu exemplo, o narrador alcança uma compreensão genuína do que significa ser humano. Para seu deslumbramento e embaraço.

Mikis Theodorakis, autor da música de "Zorba, o Grego" (1964)

Publicado primeiramente em inglês em 1952, "Vida e Andanças de Alexis Zorbás" é uma obra popular e bastante conhecida de Kazantzakis. Como outros tantos romances do autor, este foi escrito numa fase tardia da sua vida, após vários anos a viajar, a escrever, e a estudar religião e filosofia. O narrador do livro é modelado conforme o rigor intelectual de Kazantzakis, ao passo que a personagem Zorba parece ser uma personificação do élan vital encontrado na filosofia de Henri Bergson, a cujas palestras Kazantzakis assistiu em Paris. O romance é narrado por um escritor e intelectual cuja vida se cingiu aos livros e às ideias, ao invés da vida concreta. Para mergulhar numa vida de acção, decide reabrir uma mina abandonada na ilha de Creta. Zorba, um homem grande cheio de paixão e entusiasmo pela vida, encontra o narrador à espera do barco para Creta, e impulsivamente pede-lhe para partir com ele. Pressentindo que Zorba personifica a vida que procura, o narrador aceita Zorba como companheiro e capataz da mina.

Irene Papas em "Zorba, o Grego" (1964)

São dadas as boas-vindas aos dois na ilha, sendo que Zorba prontamente desenvolve uma relação com a Madame Hortense, uma cortesã francesa envelhecida que recorda ter sido a amante de vários almirantes entre outros. Ao passo que o narrador permanece introspetivo e reservado, Zorba é tempestuoso e persegue cada tarefa e oportunidade como ocasiões para uma possível celebração. E assim, deseja possuir várias mulheres, canta, dança, luta, come e trabalha – e todas estas actividades são cometidas com o mesmo deleite e entusiasmo. Sem ilusões, acredita que tanto o homem como a mulher são animais, e que as igrejas e os governos são antros de corrupção. Recusa-se a aceitar o envelhecimento e a morte, mas continua a saborear o que de mau e bom a vida tem para oferecer. Zorba insiste que o narrador persiga a viúva da vila, que é odiada pelos habitantes pela sua beleza inacessível. Logo depois de o narrador passar uma noite com ela, o cadáver de um jovem que foi recusado pela viúva é encontrado. Apesar de Zorba lutar para a salvar, os habitantes acabam por matá-la num sacrífico ritual sexualizado. Após o narrador prometer a mão de Zorba em casamento a Madame Hortense, Zorba, com grande cortesia, aceita o enlace devido à felicidade manifestada por Hortense. Contudo, antes da cerimónia ser consumada, esta morre de pneumonia. O livro termina com a separação do narrador e de Zorba.

Anthony Quinn e Alan Bates em "Zorba, o Grego" (1964)

O encontro real com George Zorbás, um camponês mais velho, mineiro, de grande sabedoria e com quem Kazantzakis estabeleceria uma relação de forte amizade, foi determinante para o escritor. Kazantzakis, nas suas próprias palavras, diz que não é um intelectual. Antes, «uma alma selvagem». Quem foi então aquele homem que escreveu poesia, romances, ensaios filosóficos, guiões, livros de viagens, e traduziu clássicos como "A Divina Comédia" de Dante ou o "Fausto" de Goethe? O pintor Roussetos Panayotakis descreve-o como «uma corrente elétrica». «Andava sempre com um chapéu de chuva e um livro ou jornal debaixo do braço», diz ainda, trazendo à memória a sua imagem.


Nikos Kazantzakis (1883-1957) foi o maior escritor da Grécia da primeira metade do século XX. Nasceu em Creta durante o período de revolta contra o Império Otomano. Viveu uma vida repleta, com incontáveis viagens, que alimentaram a sua escrita, aguçando o seu olhar dirigido ao Homem como igual na essência em cada canto do mundo. Todavia, talvez nada como a Grécia natal tenha alimentado as suas histórias. «Ele abria as asas por todo o mundo e usando apenas lendas locais, que normalmente diriam algo apenas para ao nativos de Creta, como o capitão Michalis ou Zorba, o Grego, conseguia enfatizar os aspetos universais, e criar um universo acessível a toda a gente, em todo o lado», afirma o escritor Nikos Chrissos. Escreveu romances, poemas, ensaios, livros de viagens e peças de teatro. Mas mais do que erudito, foi um homem de acção. Alistou-se como voluntário no Exército Grego durante a guerra dos Balcãs, viajou pela Europa e pela Ásia, empenhando-se em causas e combatendo ao lado das facções que apoiava. No seu epitáfio lê-se: «Não tenho nenhuma esperança. Não tenho medo de nada. Sou livre.»

Alan Bates e Anthony Quinn em "Zorba, o Grego" (1964)

«No universo romancesco, nomeadamente no "Cristo Recrucificado", há um conjunto vasto de personagens-tipo que também são universais mas sem nunca deixarem de ter uma componente muito evidente de ligação à terra cretense. Aliás, Kazantzakis é primeiro que tudo cretense, e depois grego e universal», diz José António Costa Ideias: «As personagens são universais, sobretudo na tentativa de conquista da liberdade, que é tão importante para Kazantzakis, é por isso que é tão importante o aspeto colectivo. Ele dá grande relevo às massas, ao colectivo. mesmo no teatro há essa dimensão.» É autor de obras como "Cristo Recrucificado", "O Bom Demónio", "Liberdade ou Morte", "A Última Tentação de Cristo" ou "Carta a Greco", publicadas há muito em Portugal por editoras como a Portugália e a Ulisseia, sobretudo em traduções a partir do francês.

O EP português da banda-sonora do filme (edição de 1965)

Kazantzakis aproximou-se do socialismo, mas pedia tanto a bolcheviques como a fascistas que eliminassem o seu nome dos seus livros: «É absolutamente contra a minha natureza pertencer a um gangue ou a uma multidão.» «Há nele uma tentativa em parte conseguida de síntese. Kazantzakis percorre várias linhas, várias áreas, aproxima-se de várias correntes, como o Cristianismo, mas também o Budismo, o Marxismo... Essa ânsia de conhecimento e de liberdade leva-o a contactar e até abraçar pontualmente estes ideiais», afirma Costa Ideias. «Na dimensão espiritual do autor, está em causa não tanto a "religião no sentido convencional do termo", organizada, mas "uma procura incessante pelos limites do próprio homem". Rejeitado por alguns cristãos, a relação com a Igreja foi, aliás, problemática até ao final da sua vida. Depois de recusarem que o seu corpo estivesse na capela da Arquidiocese de Atenas, Kazantzakis foi levado para Creta, onde o arcebispo celebrou a missa fúnebre. Todavia, nenhum membro do clero queria estar no enterro, por medo das reações. Acabou por fazê-lo um padre militar num funeral onde estiveram milhares de pessoas e onde até à manhã do dia seguinte a sua vida foi celebrada. Hoje em dia na Grécia está a operar-se uma recuperação e reavaliação crítica da sua obra, sobretudo no meio académica, mas também na opinião pública.»

Willem Dafoe em "A Última Tentação de Cristo" (1988)

«Talvez pela antiguidade da sua vida e obra, pela hegemonia das literaturas inglesa, francesa, americana e latino-americana, ou mesmo pela natureza iconoclasta do seu pensamento, se possa explicar o motivo pelo qual tão pouco do trabalho de Nikos Kazantzakis tenha chegado a Portugal até agora: apenas uma edição de 1984 de "Cristo Recrucificado", o seu relato de uma encenação teatral da Paixão de Cristo numa aldeia grega da Anatólia», refere Pedro Miranda na revista "Sábado". E continua: «Não falamos afinal, apenas de um dos maiores e mais lidos autores do século XX no seu país, mas de um escritor com larga repercussão internacional, por nove vezes tido em conta pela Academia Sueca para vencer o Nobel da Literatura e perdendo o último, de 1957, ano da sua morte, para Albert Camus por apenas um voto. Camus diria, mais tarde, que Kazantzakis merecia a distinção "100 vezes mais" do que ele próprio. Depois da sua morte, contribuíram igualmente para a difusão do seu nome além-fronteiras duas grandes obras cinematográficas baseadas no seu trabalho: "A Última Tentação de Cristo", de Martin Scorsese (1988) com Willem Dafoe no papel de Jesus; e "Zorba, o Grego", uma produção grega de 1964, que arrecadou 3 Óscares - melhor actriz secundária para Lila Kedrova, Fotografia e Direcção Artística -, tendo obtido ainda mais 4 nomeações - Filme, Realizador, Actor (Anthony Quinn) e Argumento-adaptado.

É na obra que agora nos chega, pela primeira vez em português , que se baseia este último filme: "Vidas e Andanças de Alexis Zorbás", geralmente tido como um dos melhores livros de Kazantzakis. O que o filme capta na perfeição é a caracterização de uma personagem absolutamente sui generis, eternizada no écran por Anthony Quinn, num desempenho tido como o mais memorável da sua carreira: um velho carismático e hedonista que ama a vida e a liberdade, e que entra na vida do narrador simplesmente pedindo que o leve com ele na sua viagem, o que, contra a sua natureza recatada, acaba por fazer. O que escapa à adaptação, no entanto, é a dimensão espiritual do embate entre a personagem do narrador, qual D. Quixote irremediàvelmente idealista, romântico e perdido nos seus livros (uma versão ficcionada do próprio Kazantzakis) e Zorbás, um Sancho Pança pragmático, impermeável a filosofias, o que o exorta a experienciar o mundo com as mãos e os pés, em vez de com a cabeça, uma espécie de microcosmos do eterno confronto entre razão e emoção. De facto, ler o romance é depararmo-nos, ao virar de cada página, com uma nova inspecção da condição humana, seja pelo prisma do desapego de Buda, do inferno de Dante ou do rumo certo para uma Humanidade perdida entre Deus e o Diabo.»

Editora: Edições 70 (Novembro 2022)
ISBN: 978-972-442-649-5
Nº de páginas: 384

(Post by Jota Marques)