quarta-feira, 21 de dezembro de 2022
MEDICINA TROPICAL
domingo, 13 de novembro de 2022
CANÇÃO DA MANHÃ
este "desejo de te encontrar"
quando ainda não te conhecia.
como os rios que te correm entre os olhos
como as esmeraldas que formam as asas dos teus ombros
como os longos ramos da árvore de sono do teu braço
como o grande espaço em que o teu corpo repousa
deitado na tua própria mão
como a tua sombra idêntica à nuvem
que se encontra com o mar.
nas noites em que o fogo se acende
nas montanhas longínquas e fulgurantes
quando os meus passos me projectam
para os mais elevados cumes solitários
quando o sangue canta
através do aço vibrante do meu corpo
levando-me ao longo do caminho de flores rubras
que tu plantaste.
nascida nas minhas mãos
erguida como torre duma catedral perdida
envolta na minha boca
caminhando comigo
pela estrada que nossos pés abrirão triunfantes.
(Mário-Henrique Leiria)
(Post by Jota Marques)
sexta-feira, 28 de outubro de 2022
ENGANO
O ruído dos motores
tornara-se ensurdecedor.
Depois, de súbito, tudo
ficou em silêncio.
Foi à janela e olhou.
Lá em baixo os carros
tinham parado, exactamente em frente à mansão. Abriram-se portas e as fardas
começaram a saír, algumas de bota alta, olhando para cima.
Recuou um pouco, para não
ser visto lá de fora. Encostou o cano da Stein ao canto da janela e, aguentando
com firmeza na anca, atirou a primeira rajada num movimento sabiamente
circular. E continuou.
Enganara-se. Pela primeira
vez.
Vinham apenas dizer-lhe
que fora eleito Presidente.
Mário-Henrique Leiria in "Contos do Gin-Tonic", 1973
(Post by Jota Marques)
sexta-feira, 14 de outubro de 2022
MÁRIO-HENRIQUE LEIRIA: "CONTOS DO GIN-TONIC" (1973)
Escritor e pintor português, nasceu a 2 de Janeiro de 1923, em Lisboa, e morreu a 9 de Janeiro de 1980, em Cascais. Frequentou a Escola de Belas-Artes - de onde seria expulso em 1942 - e participou, entre 1949 e 1951, nas atividades da movimentação surrealista em Portugal (colaborou na exposição de 1949 e assinou alguns dos textos colectivos, como "Afixação Proibida") tendo aderido ao Grupo Surrealista Dissidente. Depois começou a andar de um lado para o outro: exerceu várias profissões (marinha mercante, caixeiro de praça, operário metalúrgico e da construção civil, etc.) e viveu grande parte da sua vida no estrangeiro (Europa Ocidental, Norte de África, Médio Oriente, e até, dizem, os países socialistas). Não ia aos Balcãs porque tinha medo, todos lhe diziam que lá os bigodes eram enormes e as bombas estoiravam até mo bolso. Um dia teve que passar por lá. Os bigodes eram realmente grandes, mas toda a gente sabia rir. Tirou o casaco e bebeu que se fartou. Em 1958 meteram-se-lhe ideias na cabeça e foi até Inglaterra, para aprender coisas. Não aprendeu e voltou. Entre 1959 e 1961 foi casado e não fez mais nada. Alguns textos seus, escritos em colaboração, foram recolhidos na "Antologia Surrealista do Cadáver Esquisito" (1961), organizada por Mário Cesariny. Instalou-se no Brasil onde desenvolveu várias atividades, como a de encenador e de director literário da Editora Samambaia.
Regressou a Portugal em 1970. Colaborou, com pequenos contos, no suplemento "Fim-de-Semana", do jornal República e no semanário humorístico, "Pé de Cabra". Em 1973 edita o seu primeiro livro "Contos do Gin-Tonic", primeiro de vários volumes que reúnem pequenas narrativas de um nonsense truculento, onde ainda é visível a influência do legado surrealista. Chefiou a redacção de "O Coiso", semanário impresso nas oficinas do República, durante 13 semanas, em 1975. Adere ao PRP (Partido Revolucionário do Proletariado em 1976 e nesse mesmo ano dirige a revista "Aqui", ao mesmo tempo que realiza várias traduções (Faulkner, Aldous Huxley, Gorki). Posteriormente editaria "Novos Contos do Gin-Tonic" (1974), "Imagem Devolvida" (1974), "Um Conto de Natal para Crianças" (1975), "Casos de Direito Galáctico" (1975), "O Mundo Inquietante de Josefa" (fragmentos) (1975) e "Lisboa ao Voo do Pássaro" (1979). Os últimos anos da sua vida foram muito difíceis, tolhido pela doença (degenerescência óssea) e afligido pela pobreza, vivendo na casa materna, com a mãe e uma tia, muito idosas. Viria a morrer com apenas 57 anos. Grande parte da obra poética dispersa e inédita de Mário-Henrique Leiria, nomeadamente aquela que resultou da sua actividade surrealista, foi publicada postumamente, encontrando-se o seu espólio depositado na Biblioteca Nacional.
Não tinha dado nada.
Preparava-me para voltar para casa, mas resolvi atirar a linha uma última vez.
Senti um esticão bem forte. Segurei firme e comecei a enrolar o carreto com cuidado, devagar. E não é que vejo vir um nazi no anzol! Um nazi bem bom, dos grandes! Fiquei admiradíssimo, tinham-me dito que já não havia. Tratei de o tirar com o auxílio do camaroeiro e fui verificar imediatamente. Era mesmo. General e SS, calculem! Com boné, medalhas, suástica e tudo. Vá lá uma pessoa acreditar no que lhe dizem! Meti-o logo numa lata, enquanto estava fresco, e despachei-o para a Peixaria Nacional. Lá devem saber o que fazer com ele. A mim, francamente, não me serve para nada.


