segunda-feira, 3 de julho de 2023
quinta-feira, 2 de fevereiro de 2023
sexta-feira, 11 de novembro de 2022
quinta-feira, 3 de novembro de 2022
CARTAS DE AMOR
Ridículas
Não seriam cartas de amor se não fossem
Ridículas
como as outras
Ridículas
têm de ser
Ridículas
só as criaturas que nunca escreveram
cartas de amor
é que são
Ridículas
sem dar por isso
cartas de amor
Ridículas
as minhas memórias
dessas cartas de amor
é que são
Ridículas
como os sentimentos esdrúxulos
são naturalmente
Ridículas)
(Álvaro de Campos)
UMA CARTA DE AMOR
Lembras-te da primeira cartinha que te escrevi? Lembras-te de eu te dizer que era impossível gostares de mim? Agora acho impossível que possa ter duvidado que não podia haver amor no espaço oco da distância. E a prova veio ao meu encontro: prendi-me também à distância. Às vezes tento duvidar disso; mas porque anseio tanto por uma cartinha tua? Porque as leio e releio? Porque me detenho tanto tempo a olhar para ti? Porque estas duas palavras, "amo-te muito" que me dedicaste, me impressionaram tanto? Porque teimo em olhar milhares de vezes para elas? Porque desejo tanto que este ano acabe para te voltar a ver? Porque não tenho interesse por nada, porque gosto da solidão, coisa que detestava? Porque não páro de ouvir aquela música tão especial que já nos pertence? E porque me vêm as lágrimas aos olhos quando o faço? Porque, enfim, desejo tanto ver-te, falar-te, estar a teu lado, não em pensamentos, mas na realidade? E vem a certeza: também eu gosto muito muito de ti, não posso escondê-lo. E agora, que já o sabes nitìdamente, tenta por tudo arranjar uma vitória sobre todo este tempo que nos separa, pois eu estou à tua espera... (Letícia Peres, sábado, 16 de Maio de 1970)
(Post by Jota Marques)
sábado, 29 de outubro de 2022
NOS MURMÚRIOS DO TEMPO...
Nos murmúrios do tempo
eu vou embora
sem destino!
Nos estilhaços do sonho
eu perco meu enredo
e não tenho limites...
Minha sombra nasce como as
horas
sobre mim.
Estou aqui!
Se é longe ou perto... -
eu não sei!
Meu futuro está além
nas pedras da calçada que
vou pisar.
E que não me enganem os
ouvidos
com melodias surdas sobre
a vida!
Todos os dias eu adormeço
com a voz do
AGORA
e acordo com o peso da
noite sobre mim!
Se é madrugada é puro
acaso
que eu não acredito que o
sol
fabrique os meus dias!
Meu combate de perguntas
acabou!
Isolei meu inimigo - as
respostas
e fiquei só
no campo de batalha
... EM PAZ!
Letícia Peres, São Paulo,
31 de Janeiro de 1976
(Post by Jota Marques)
segunda-feira, 24 de outubro de 2022
PABLO NERUDA: 20 POEMAS DE AMOR E UMA CANÇÃO DESESPERADA
É um livrinho pequeno, em contraste absoluto com a grandiosidade do seu autor. Foi escrito em 1924, mas a 1ª edição portuguesa ocorreu apenas em Dezembro de 1971, talvez de propósito, visto ter sido um ano mágico para mim, no que aos amores diz respeito: «De novo pensamos na injustiça do destino! Grandes injustos somos! Pois se nos amamos..! Mas... injustos? Pois se nos amamos..., porque teremos que viver sempre estes momentos tristes da distância?!!! Queria escrever coisas belas, reviver momentos belos, anteviver um futuro belo..! Mas não consigo pensar em beleza! A verdade suplanta-a e resta-me a solidão triste que terei de enfrentar. A música corre..., a NOSSA música, que ouvimos tantas vezes entregues à imagem um do outro! Estou desesperada, reconhecida, esperançada! Tudo é muito confuso, caótico! Surgem-me pensamentos sem ligação numa doação total ao que sinto por ti! Não digo adeus..! Não é palavra para dois seres que se amam! Um grande beijo, um beijo eterno, muito meigo... até... até... até quando quiseres, porque sou tua a todo o momento!» (Letícia Peres, Lisboa, 29 de Setembro de 1971)
"20 Poemas de Amor e uma Canção Desesperada", uma edição bilingue e ilustrada, com tradução de Fernando Assis Pacheco, é consequentemente um dos livros da minha vida, que tenho a necessidade de ter sempre à mão. Presentemente tenho comigo a sétima edição, publicada em Maio de 1977. Aquela primeira edição ofereci-a à mesma pessoa que escreveu as palavras acima referidas, 22 anos depois, e com a seguinte dedicatória: «Existem amores, vagos e fugidios, que duram apenas 3 dias. Mas há outros, raros e preciosos, que o tempo e a saudade alimentam e que duram toda a vida.»
TAMBÉM ESTE CREPÚSCULO...
Também este crepúsculo nós
perdemos.
Ninguém nos viu hoje à
tarde de mãos dadas
enquanto a noite azul caía
sobre o mundo.
Olhei da minha janela
a festa do poente nas
encostas ao longe.
Às vezes como uma moeda
acendia-se um pedaço de
sol nas minhas mãos.
Eu recordava-te com a alma
apertada
por essa tristeza que tu
me conheces.
Onde estavas então?
Entre que gente?
Dizendo que palavras?
Porque vem até mim todo o
amor de repente
quando me sinto triste, e
te sinto tão longe?
Caiu o livro em que sempre
pegamos ao
[crepúsculo
e como um cão ferido rodou
a minha capa aos
[pés.
Sempre, sempre te afastas
pela tarde
para onde o crepúsculo
corre apagando estátuas.
(Pablo Neruda, 1924)
(Post by Jota Marques)
sábado, 15 de outubro de 2022
O TEMPO DAS FLORES
do primeiro beijo.
Do tempo das flores
me vem o teu rosto
e o primeiro desejo.
Do tempo das flores
esta doce lembrança
que ainda me aquece.
Do tempo das flores
sou sempre a criança
que nunca te esquece!
No tempo das flores
tive o carinho
do teu abraço.
No tempo das flores
tu... passarinho
e eu... o espaço.
No tempo das flores
eram mãos dadas
e beijos ternos.
O tempo das flores
foi tempo de fadas
de amores eternos.
Atiro-te flores
p’ró tempo de agora...
Queria voltar
ao tempo das flores.
Vimeiro Editores, Fevereiro de 1994
(Post by Jota Marques)








