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segunda-feira, 3 de julho de 2023

Encostei a cara contra o vidro
e chorei!
Olhei a natureza
por entre aqueles pingos de dor
que entristeciam
ainda mais do que a chuva
as flores que murchavam lentamente!
Senti-me só!
Agarrei desesperada um livro
de poesia
procurando assim
a alegria que não tinha!
Mas…
Senti-me ainda mais abandonada
vi ainda mais nitidamente
que as flores murchavam para SEMPRE!
Apeteceu-me ser CRIANÇA
MAIS CRIANÇA do que já fora algum dia.
Quis NUNCA ter sonhado
que seria herdeira
desse reino belo
que as fadas faziam para MIM!
Fechei os olhos!
Seria bom reviver
se a realidade se não impusesse agora
e me dissesse
que era PRECISO RECOMEÇAR!
RECOMEÇAR!
RECOMEÇAR
quando o que nos parecia BELO
e REAL
se transformava assim
num CAOS!
Recomeçar LENTAMENTE
quando víamos
ter que ser
MAIS VELOZES QUE O TEMPO
para que ele
não nos ULTRAPASSASSE
sem CAIRMOS!
Era preciso
gritar VIDA
subtrair ao SORRISO
todo o seu desespero
e então
sorrir por sorrir!
Era preciso olhar ADIANTE
subtrair  ao passado
as pedras OCAS
que nos tinham feito CAIR!
Era preciso…
Era preciso
SER OUTRO EM NÓS
ou
SERMOS NÓS NOUTRO!

(Letícia Peres, 11 de Abril de 1972)

quinta-feira, 3 de novembro de 2022

CARTAS DE AMOR

                    Todas as cartas de amor são                 
                     Ridículas
                     Não seriam cartas de amor se não fossem
                     Ridículas
                     
                     Também escrevi em meu tempo cartas de amor
                     como as outras
                     Ridículas
                     
                     As cartas de amor, se há amor
                     têm de ser
                     Ridículas
                    
                     Mas afinal
                     só as criaturas que nunca escreveram
                     cartas de amor
                     é que são
                     Ridículas
                   
                     Quem me dera no tempo em que escrevia
                     sem dar por isso
                     cartas de amor
                     Ridículas
                     
                     A verdade é que hoje
                     as minhas memórias
                     dessas cartas de amor
                     é que são
                     Ridículas
                     
                     (Todas as palavras esdrúxulas
                     como os sentimentos esdrúxulos
                     são naturalmente
                     Ridículas)

 (Álvaro de Campos)

UMA CARTA DE AMOR

Lembras-te da primeira cartinha que te escrevi? Lembras-te de eu te dizer que era impossível gostares de mim? Agora acho impossível que possa ter duvidado que não podia haver amor no espaço oco da distância. E a prova veio ao meu encontro: prendi-me também à distância. Às vezes tento duvidar disso; mas porque anseio tanto por uma cartinha tua? Porque as leio e releio? Porque me detenho tanto tempo a olhar para ti? Porque estas duas palavras, "amo-te muito" que me dedicaste, me impressionaram tanto? Porque teimo em olhar milhares de vezes para elas? Porque desejo tanto que este ano acabe para te voltar a ver? Porque não tenho interesse por nada, porque gosto da solidão, coisa que detestava? Porque não páro de ouvir aquela música tão especial que já nos pertence? E porque me vêm as lágrimas aos olhos quando o faço? Porque, enfim, desejo tanto ver-te, falar-te, estar a teu lado, não em pensamentos, mas na realidade? E vem a certeza: também eu gosto muito muito de ti, não posso escondê-lo. E agora, que já o sabes nitìdamente, tenta por tudo arranjar uma vitória sobre todo este tempo que nos separa, pois eu estou à tua espera... (Letícia Peres, sábado, 16 de Maio de 1970)

(Post by Jota Marques)

sábado, 29 de outubro de 2022

NOS MURMÚRIOS DO TEMPO...

Nos murmúrios do tempo

eu vou embora

sem destino!

Nos estilhaços do sonho

eu perco meu enredo

e não tenho limites...

Minha sombra nasce como as horas

sobre mim.

Estou aqui!

Se é longe ou perto... - eu não sei!

Meu futuro está além

nas pedras da calçada que vou pisar.

E que não me enganem os ouvidos

com melodias surdas sobre a vida!

Todos os dias eu adormeço com a voz do

                                                AGORA

e acordo com o peso da noite sobre mim!

Se é madrugada é puro acaso

que eu não acredito que o sol

fabrique os meus dias!

Meu combate de perguntas acabou!

Isolei meu inimigo - as respostas

e fiquei só

no campo de batalha

... EM PAZ!

 

Letícia Peres, São Paulo, 31 de Janeiro de 1976

(Post by Jota Marques)

segunda-feira, 24 de outubro de 2022

PABLO NERUDA: 20 POEMAS DE AMOR E UMA CANÇÃO DESESPERADA

É um livrinho pequeno, em contraste absoluto com a grandiosidade do seu autor. Foi escrito em 1924, mas a 1ª edição portuguesa ocorreu apenas em Dezembro de 1971, talvez de propósito, visto ter sido um ano mágico para mim, no que aos amores diz respeito: «De novo pensamos na injustiça do destino! Grandes injustos somos! Pois se nos amamos..! Mas... injustos? Pois se nos amamos..., porque teremos que viver sempre estes momentos tristes da distância?!!! Queria escrever coisas belas, reviver momentos belos, anteviver um futuro belo..! Mas não consigo pensar em beleza! A verdade suplanta-a e resta-me a solidão triste que terei de enfrentar. A música corre..., a NOSSA música, que ouvimos tantas vezes entregues à imagem um do outro! Estou desesperada, reconhecida, esperançada! Tudo é muito confuso, caótico! Surgem-me pensamentos sem ligação numa doação total ao que sinto por ti! Não digo adeus..! Não é palavra para dois seres que se amam! Um grande beijo, um beijo eterno, muito meigo... até... até... até quando quiseres, porque sou tua a todo o momento!» (Letícia Peres, Lisboa, 29 de Setembro de 1971)

"20 Poemas de Amor e uma Canção Desesperada", uma edição bilingue e ilustrada, com tradução de Fernando Assis Pacheco, é consequentemente um dos livros da minha vida, que tenho a necessidade de ter sempre à mão. Presentemente tenho comigo a sétima edição, publicada em Maio de 1977. Aquela primeira edição ofereci-a à mesma pessoa que escreveu as palavras acima referidas, 22 anos depois, e com a seguinte dedicatória: «Existem amores, vagos e fugidios, que duram apenas 3 dias. Mas há outros, raros e preciosos, que o tempo e a saudade alimentam e que duram toda a vida.»


TAMBÉM ESTE CREPÚSCULO...

 

        Também este crepúsculo nós perdemos.

        Ninguém nos viu hoje à tarde de mãos dadas

        enquanto a noite azul caía sobre o mundo.

 

        Olhei da minha janela

        a festa do poente nas encostas ao longe.

 

        Às vezes como uma moeda

        acendia-se um pedaço de sol nas minhas mãos.

 

        Eu recordava-te com a alma apertada

        por essa tristeza que tu me conheces.

 

        Onde estavas então?

        Entre que gente?

        Dizendo que palavras?

        Porque vem até mim todo o amor de repente

        quando me sinto triste, e te sinto tão longe?

 

        Caiu o livro em que sempre pegamos ao

                                                          [crepúsculo

        e como um cão ferido rodou a minha capa aos

                                                                   [pés.

 

        Sempre, sempre te afastas pela tarde

        para onde o crepúsculo corre apagando estátuas.


(Pablo Neruda, 1924)

(Post by Jota Marques)

sábado, 15 de outubro de 2022

O TEMPO DAS FLORES

Do tempo das flores
me ficou o gosto
do primeiro beijo.
Do tempo das flores
me vem o teu rosto
e o primeiro desejo.
Do tempo das flores
esta doce lembrança
que ainda me aquece.
Do tempo das flores
sou sempre a criança
que nunca te esquece!
No tempo das flores
tive o carinho
do teu abraço.
No tempo das flores
tu... passarinho
e eu... o espaço.
No tempo das flores
eram mãos dadas
e beijos ternos.
O tempo das flores
foi tempo de fadas
de amores eternos.
Atiro-te flores
p’ró tempo de agora...
Queria voltar
ao tempo das flores.


Letícia Peres in "O Tempo das Flores"
Vimeiro Editores, Fevereiro de 1994

(Post by Jota Marques)