segunda-feira, 22 de junho de 2026

DISCOS DE VINIL



Lembras-te dos nossos discos de vinil?

Dançámos Mantovani à luz das velas

eu de pijama cor de anil

tu de roupão e de chinelas!

 

Ouvíamos os Beatles ao luar

Joan Manuel Serrat como protesto

Bob Dylan ao serão, antes de deitar,

“Os vampiros” como manifesto

 

“Eu sei que vou te amar”…

Maysa Matarazzo ao acordar

com os bons dias e um abraço

Joan Baez baixinho, a acompanhar

um cigarro e um café lá no terraço

 

“Non, je ne regrette rien”

Édith Piaf… e a chuva tamborilava

ao bater nos vidros da janela

Jacques Brel… enquanto me penteava,

e tu compunhas o lenço na lapela

 

Há quanto tempo já não lhes tocamos,

no sótão, atados com cordel e nó

os nossos discos estão, como nós estamos,

cobertos de lembranças e de pó!

 

Maria de Abreu Morais

domingo, 7 de junho de 2026

O COMPROMISSO

 

Autor: ELIA KAZAN (1967)
Título original: THE ARRANGEMENT
Editora: IBIS (2ª edição: Março de 1970)
Tradução: Maria Teresa Ramos
Local de Compra: Livraria Progresso, L.M. (112$50)

"O Compromisso", diz Kazan, trata do perigo do silêncio. Trata do entendimento não falado que estabelecemos ou fazemos com o próximo, e finalmente com nós próprios, não dizendo o que pensamos... Existe um enorme perigo neste compromisso-feito, neste silêncio-pactuado. E assim, em breve, depois de nos termos desabituado do hábito de dizer as nossas verdades aos outros, deixamos de dizer as verdades a nós mesmos, deixando de saber o que sentimos, e por fim podemos deixar de saber do que gostamos e do que não gostamos. Porque é político darmo-nos bem com os outros, as nossas reacções e as nossas acções tendem a tornar-se uma série de conveniências. Talvez que a mais importante função do artista seja a de manter abertas as genuínas vias de resposta. A salvação do escitor está na candura consigo próprio.

Pode reprovar-se o comportamento de Eddie Anderson. Toda a sua vida é uma série de compromissos falsos: o seu casamento, o seu trabalho, as suas escapadas extraconjugais, as suas amizades. Mas ninguém pode negar a sua humanidade. Eddie está à mercê das suas gónadas e hormonas, bem como da sua consciência e dos refinamentos sociais. Encontra-se preso às obrigações de que todos nós partilhamos. Ele nunca entendia. Não tem autocompaixão. Não dissimula as suas qualidades mais vis. Tem um imenso sentido de ironia. É frequentemente divertido. Cerca do fim do livro Eddie adquire aquilo que é mais necessário neste instável planeta: um novo modelo funcionante de um ser humano (Eleanor Perry in Life).

Elia Kazan adaptou de forma hábil e inteligente ao cinema este romance, uma intensa e fascinante reflexão sobre as forças opressivas da sociedade e do paradoxo a que não se pode fugir quando se compreende e aceita que a capitulação leva ao compromisso da mesma forma que o compromisso leva à capitulação. Um ciclo vicioso de onde nunca se consegue sair com lucidez. Tudo isto Kazan vai construindo em torno da sinuosa trajectória de um homem de sucesso, dinheiro e atribulada vida sentimental, que começa a pôr tudo em questão de forma obsessiva e demencial. No fundo, Kazan ataca o materialismo excessivo e dominador bem como a alucinação do sucesso num filme duro, amargo e desconcertante, servido por duas grandes interpretações a cargo de Kirk Douglas e Faye Dunaway.