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sábado, 4 de março de 2023

 

Há palavras que nos beijam

como se tivessem boca.

Palavras de amor, de esperança,

de imenso amor, de esperança louca.

Palavras nuas que beijam

quando a noite perde o rosto.

Palavras que se recusam

aos muros do teu desgosto.

De repente coloridas

entre palavras sem cor,

espetadas, inesperadas

como a poesia ou o amor.

(O nome de quem se ama

letra a letra revelado

no mármore distraído

no papel abandonado).

Palavras que nos transportam

aonde a noite é mais forte,

ao silêncio dos amantes

abraçados contra a morte.

 

Alexandre O’Neill

(Post by Jota Marques)

 

(Post by Jota Marques)

segunda-feira, 13 de fevereiro de 2023

DEVIA MORRER-SE DE OUTRA MANEIRA

Devia morrer-se de outra maneira.
Transformarmo-nos em fumo, por exemplo.
Ou em nuvens.
Quando nos sentíssemos cansados, fartos do mesmo sol
a fingir de novo todas as manhãs, convocaríamos
os amigos mais íntimos com um cartão de convite
para o ritual do Grande Desfazer: «Fulano de tal
comunica a V. Ex.ª que vai transformar-se em nuvem
hoje às 9 horas. Traje de passeio».
E então, solenemente, com passos de reter tempo,
fatos escuros, olhos de lua de cerimónia, viríamos
todos assistir à despedida.
Apertos de mão quentes. Ternura de calafrio.
«Adeus! Adeus!»
E, pouco a pouco, devagarinho, sem sofrimento,
numa lassidão de arrancar raízes… (primeiro, os olhos…
em seguida, os lábios… depois, os cabelos…) a carne,
em vez de apodrecer, começaria a transfigurar-se
em fumo… tão leve… tão subtil… tão pólen…
como aquela nuvem além (vêem?) – nesta tarde de outono
ainda tocada por um vento de lábios azuis…

José Gomes Ferreira

(Post by Jota Marques)

sexta-feira, 10 de fevereiro de 2023

A. RIMBAUD: OBRA COMPLETA

Editora: Relógio D’Água (Abril 2018)
Tradução: Miguel Serras Pereira e João Moita
Prefácio de Francisco Vale
Capa: Carlos César Vasconcelos, 
sobre foto de Étienne Carjat (1871)
Dimensões: 164 X 241 X 47 mm
Nº de páginas: 770
ISBN: 978-989-641-842-7


OS POBRES NA IGREJA

 

Confinados entre bancos de carvalho aos cantos da igreja

Aquecida pelos seus hálitos fétidos, todos os olhos

Virados para o coro de Talha dourada e para a mestria

De vinte goelas berrando cânticos piedosos

 

Aspirando a cera como aroma de pão quente

Felizes, humilhado como cães escorraçados

Os Pobres do bom Deus, seu patrão e senhor

Oferecem os seus oremus risíveis e casmurros.

 

Às mulheres, sabem bem os bancos lisos

Depois dos seis dias negros de provações!

Embalam, enrodilhando em estranhas peliças

Algo parecido com crianças que choram pela vida

 

Com os seios imundos de fora, estas sopistas

Com olhar de prece mas sem nunca rezarem

Observam um grupo de fedelhas maldosas

Pavonear-se com os seus chapéus deformados.

 

Lá fora, o frio, a fome e o pândego bêbado:

Tudo bem. Mais uma hora; depois, padecimentos sem fim!

Entretanto, à sua volta, geme, grasna, cochicha

Um grupo de velhas com enormes papos:

 

Aí estão os aterrorizados e os epilépticos

De quem ontem se fugia nas encruzilhadas:

E, esquadrinhando com o nariz antigos missais

Os cegos guiados por um cão até ao adro.

 

E todos, babando a fé mendicante e estúpida,

Recitam a Jesus a sua lamúria infinita

Que, amarelecido pelo lívido vitral, medita lá no alto

Longe dos magros pecadores e dos pérfidos barrigudos

 

Longe do cheiro a vianda e a tecidos bafientos

Farsa prostrada e sombria de gestos repugnantes

E a oração floresce e com expressões eleitas

E as misticidades adquirem entoações urgentes

 

Quando, das naves onde o sol perece, com pregas de seda

Banais e sorrisos verdes, as Damas dos bairros

Distintos – ó Jesus! –, as doentes do fígado

Mergulham os dedos amarelos e compridos na água benta.

 

(A. Rimbaud, 1871)


(Post by Jota Marques)

A CRIANÇA QUE FUI CHORA NA ESTRADA ~ FERNANDO PESSOA

A CRIANÇA QUE FUI CHORA NA ESTRADA
A criança que fui chora na estrada.
Deixei-a ali quando vim ser quem sou;
Mas hoje, vendo que o que sou é nada,
Quero ir buscar quem fui onde ficou.
Ah, como hei-de encontrá-lo? Quem errou
A vinda tem a regressão errada.
Já não sei de onde vim nem onde estou.
De o não saber, minha alma está parada.
Se ao menos atingir neste lugar
Um alto monte, de onde possa enfim
O que esqueci, olhando-o, relembrar,
Na ausência, ao menos, saberei de mim,
E, ao ver-me tal qual fui ao longe, achar
Em mim um pouco de quando era assim.

(22-9-1933)
Novas Poesias Inéditas. Fernando Pessoa. (Direcção, recolha e notas de Maria do Rosário Marques Sabino e Adelaide Maria Monteiro Sereno.) Lisboa: Ática, 1973 (4ª ed. 1993)

(Post by Jota Marques)

terça-feira, 7 de fevereiro de 2023

SOU UM EVADIDO


(Post by Jota Marques)

PELO SONHO É QUE VAMOS...

 

                         Pelo sonho é que vamos,
                         comovidos e mudos.
                         Chegamos, não chegamos?
                         Haja ou não haja frutos,
                         pelo sonho é que vamos.
                         Basta a fé no que temos.
                         Basta a esperança naquilo
                         que talvez não teremos.
                         Basta que a alma demos,
                         com a mesma alegria,
                         ao que desconhecemos
                         e ao que é do dia a dia.
                         Chegamos?
                         Não chegamos?
                         Partimos.
                         Vamos.
                         Somos.

(Post by Jota Marques)

TODO AMOR ~ VINICIUS DE MORAES

Editora: Penguin Random  House, 
Grupo Editorial Unipessoal, Lda (2017)
Companhia das Letras (Novembro 2019)
Capa: Claudia Warrack (adaptação de Teresa Coelho)
Dimensões: 137 X 216 X 23 mm
Nº de páginas: 280
ISBN: 978-989-665-910-3

Diplomata e poeta brasileiro, Marcos Vinicius da Cruz de Mello Moraes nasceu a 19 de Outubro de 1913, na Gávea, no Rio de janeiro, e morreu a 17 de Abril de 1980, na mesma cidade. Em 1933, concluíu um Curso de Oficial de Reserva e formou-se em Direito, passando pelos bancos da Universidade de Oxford. Ao seguir a carreira diplomática, estabeleceu-se nomeadamente em Los Angeles, Montevideu e Paris. Nas Letras, as suas preferências iam para Katherine Mansfield, Georges Bernanos e François Mauriac. Convivia habitualmente com intelectuais como Carlos Drummond de Andrade, João Cabral de Melo Neto e Rubem Braga. O livro "O Caminho da Distância" marcou a sua estreia literária, em 1933. Vinicius publicaria ainda "Forma e Exegese" (1935), "Ariana, a Mulher" (1936), "Novos Poemas" (1938), "Cinco Elegias" (1943), "Poemas, Sonetos e Baladas" (1946) e "Pátria Minha" (1949). Na sua poesia, a crítica encontrava reminiscências do verso livre e generoso de Walt Whitman e do transcendentalismo de um Charles Péguy ou de um Paul Claudel. O erotismo marca o seu percurso poético, refreado todavia pela reserva da sua educação religiosa.



A sua relação com a música popular estreitou-se com o encontro com António Carlos Jobim, em 1956, quando este musicou a peça "Orfeu da Conceição". Nessa época, Vinicius tinha já publicado um dos seus mais belos poemas, "O Operário em Construção". A parceria com Tom Jobim daria lugar aos grandes sucessos do movimento da bossa-nova e ao maior êxito internacional da dupla, "Garota de Ipanema". A adaptação cinematográfica de "Orfeu da Conceição" fora entretanto premiada em Cannes e recebera o Óscar do Melhor Filme Estrangeiro. Da coabitação com a música, a escrita poética de Vinicius surge assim mais comedida, mais segura e mais exacta. Falava agora da vida de todos os dias, da felicidade, da saudade, do amor, da sensualidade, das mulheres. O convívio com Baden Powell questionou-o sobre as raízes africanas da negritude e o candomblé preencheu o seu imaginário e o seu quotidiano, povoando-o de ritos mágicos e de ancestralidade. Os afrossambas "Apelo", "Berimbau" e "Samba em Prelúdio" datam desta colaboração. Em 1960, publica a sua "Antologia Poética" e, dois anos depois, "Para Viver um Grande Amor", renovando a sua poesia através da colaboração com a nova geração de artistas brasileiros, entre os quais Edu Lobo, Francis Hime e mais tarde Toquinho. Além de autor, tornou-se o seu próprio intérprete, participando em inúmeros espectáculos. Vinicius de Moraes veio a falecer em 1980 na sua famosa banheira, legando-nos a imagem de um espírito irreverente e eternamente apaixonado.



Da sua discografia como intérprete merece uma referência o disco "!Vinicius - 90 Anos", uma edição especial lançada em 2003, em formato duplo, reunindo os temas principais do cantor, quer como letrista quer como cantor/músico. Do alinhamento do disco fazem parte alguns dos grandes clássicos da bossa-nova brasileira, canções verdadeiramente inesquecíveis como "Onde Anda Você", "Marcha de Quarta-Feira de Cinzas", "Tarde em Itapoã", com voz de Vinicius e guitarra de Toquinho. Além destes, uma nota ainda para outras canções, com letras de Vinicius, autênticos hinos da MPB, como "Garota de Ipanema" (Tom Jobim), "Água de Beber" (Maysa), entre outros. Deste poeta brasileiro se disse que foi um homem sem limites, múltiplo. Nunca foi avaro das suas emoções, dos seus sentimentos, da sua amizade. Vinicius cruzou o caminho de grandes músicos. Trabalhou com os maiores nomes da música popular brasileira: Pixinguinha, Tom Jobim, Baden Powell, Carlos Lyra, Chico Buarque e Toquinho, entre outros. Mas este poeta das boémias e do anti-establishment (de tal maneira que dele Drummond de Andrade afirmou um dia: «Vinicius é o único poeta brasileiro que viveu como um poeta») começou por receber uma educação sofisticada, entre jesuítas, poetas latinos e interrogações metafísicas. A influência indelével de Vinicius nas letras musicais do Brasil foi de tal forma abrangente que existe um "antes" e um "depois" de Vinicius. Vinicius de Moraes é e será sempre uma referência eterna, flutuando nas palavras doces que deixou, marcas impetuosas da sua personalidade e do sentimento romântico, melancólico e deliciosamente temperado e festivo da cultura popular brasileira.


Desta belissima antologia, editada em Novembro de 2019 para Portugal e o mercado europeu, profusamente ilustrada e onde se reúne uma parte significativa de todo o imenso legado que o chamado "poetinha brasileiro" nos deixou, destaco uma carta escrita em 1952 a esse monstro sagrado dos palcos ingleses, o inesquecível Sir Laurence Olivier (1907-1989). A razão não é, efectivamente, o trabalho do actor, mas tão sómente a sua mulher, Viven Leigh (1913-1967), intérprete principal de "E Tudo o Vento Levou" (1939), "A Ponte de Waterloo" (1940), "Ana Karenina" (1948) ou "Um Eléctrico Chamado Desejo" (1951), com quem Olivier esteve casado entre 1940 e 1961.

COM SUA PERMISSÃO, SIR LAURENCE OLIVIER…

Com sua permissão, Sir Laurence Olivier, mas sábado eu dei uma entrada no Metro Copacabana, à base do araque, para rever “A ponte de Waterloo”. Tinha visto o filme havia muito tempo, meu caro Sir, e não sei por quê – ah, eu creio que com os anos aprendi a ver melhor a beleza das mulheres! –, não  cheguei, então, a dar à sua nobre conjugue a metade da atenção que ela merece.

Não se zangue, não. Estou lhe falando de coração aberto. Mas eu achei Lady Laurence Olivier uma coisa aabsolutamente estupefaciente. Confesso-lhe que, dela, a grande e profunda beleza não me encantou apenas os olhos – comoveu-me o coração e meio que me deixou triste. A beleza das mulheres quando é assim sublime, e se acresce de encanto, é de cortar o peito de um homem.

Desculpe a confiança, mas, se eu fosse o senhor, largava esse negócio de Sir, largava também esse negócio de ser de cinema e teatro (com mil perdões pelo trocadilho) e ficava em casa o tempo todo prostrado, adorando sua senhora. De novo lhe peço que não me leve a mal, pois não há em mim nem sombra de segundas intenções, mas, se eu fosse o senhor, não punha uma mulher daquelas para trabalhar. Não vê! Cada vez que ela me desse um sorriso infantil daqueles, um sorriso confiante e doce daqueles; cada vez que ela pusesse nos meus aqueles olhos enormes, aqueles enormes olhos inocentes, eternamente molhados de pureza e sóbrio conhecimento – eu… eu… eu… eu sei lá o que é que eu fazia. Eu dava pantana; eu entrava no Bolero e dançava um tango argentino com a primeira vigarista que me passasse; eu fazia três entre-chats e quinze pas-de-bourrée em plena praia de Copacabana; eu ia a Caxias, andava de trem da Central, era capaz de suplantar o Ademir, fazia misérias, Sir Laurence Olivier, fazia misérias.

Aliás, quem sou eu para estar falando… Eu acredito piamente, Sir Laurence, que o senhor faça misérias. Porque eu, que não sou Sir nem nada – ah, eu faço. Também, hein, Sir Laurence… Ô peste de coisa danada de bonita que é mulher, hein, Sir Laurence…

 Vinicius De Moraes, 1952

(Post by Jota Marques)

domingo, 5 de fevereiro de 2023

ABRAÇO


Roubaram-nos os abraços. Dizem eles. O que eles não sabem, e se calhar tu também ainda não sabes, é que eu continuo a abraçar-te. Tanto. Até à distância, que não é distância porque o coração não tem distância, abraço-te.

Abraço-te quando te olho. Quando o meu olhar chama o teu, abraço-te. Quando os meus olhos se cruzam com os teus, quando os nossos olhos se encontram e nos olhamos por dentro, abraço-te. Naquele preciso segundo em que paramos o mundo para nos demorarmos num olhar mais fundo, abraço-te.

Abraço-te quando te sorrio. Quando o meu sorriso chama o teu, abraço-te. Quando o meu sorriso se cruza com o teu, quando os nossos sorrisos se encontram e nos sorrimos de dentro, abraço-te. Naquele preciso segundo em que paramos o mundo para nos demorarmos num sorriso mais cúmplice, abraço-te.

Abraço-te quando te falo. Ou mesmo quando não te falo mas nunca me esqueço de ti.

Abraço-te quando e porque te amo. Quando o meu coração chama o teu, abraço-te. Quando o meu coração se cruza com o teu, quando os nossos corações se encontram e nos moramos por dentro, abraço-te. 

(...)

Roubaram-nos os abraços. Dizem eles. O que eles não sabem, e se calhar nós também ainda nos esquecemos, é que enquanto existir o amor, ninguém consegue roubar abraços. O amor abraça-nos sempre além dos braços. E o amor nunca se rouba. É isso que nos salva. E que nos abraça para sempre.

Fecha os olhos. Sente bem, no teu coração. Sentes? Abraço-te.

Daniela Barreira

(Post by Jota Marques)

sexta-feira, 3 de fevereiro de 2023

UM DIA VIRÁ

 

(Post by Jota Marques)

SAUDADE

 
Passamos uma época da vida coleccionando emoções. 
A outra, coleccionando saudades... 
Saudade é uma palavra extremamente complexa, cheia de significado e muito difícil de traduzir do português para outros idiomas, devido à sua precisão. Não tem tradução literal em muitas línguas. Saudade é uma das palavras mais utilizadas na poesia e na música romântica da língua portuguesa. Significa a memória de algo que aconteceu e a intensa vontade de reviver certos momentos. É um sentimento causado pela distância ou ausência de algo ou de alguém. A palavra saudade é de origem latina, do vocábulo "solitatem", que quer dizer “solidão”. A saudade, segundo a lenda, surgiu no período dos descobrimentos e definia a solidão que os portugueses sentiam por estarem longe da sua terra e dos seus familiares. Eram atacados por uma melancolia imensa por se sentirem tão sós e distantes dos seus. Saudade é aquele baú guardado dentro de nós, que a gente senta, abre, olha, lembra de tanta coisa, sorri, chora, suspira, mas sabe que tem que fechar, se levantar e seguir.

(Post by Jota Marques)

sábado, 28 de janeiro de 2023

SILÊNCIOS DA MESMA VOZ

 Há muito que a esperança não habita em mim. Falo daquele desejo já velhinho, que um dia partilhaste comigo, e que nos impelia a sair assim de mansinho do sonho para a realidade, ao encontro daquilo em que cada um de nós se tornara. 

E quando o passado passar (e passará, porque o passado é hoje), e o futuro vier (e há-de vir, porque o futuro é hoje), então sim, entenderás tudo. E esse tudo será certo, simples, claro: hás-de ver depois, de costas para o Sol, fundir-se as duas sombras que tivemos numa só sombra, como dois silêncios da mesma voz.

(Lorde Sommer, 2002)
(Post by Jota Marques)

quarta-feira, 21 de dezembro de 2022

MEDICINA TROPICAL

O calor era alucinante. A chuva caía pesada, num jogo de massacre.
Sentiu que tinha uma tremenda dor de cabeça. Dirigiu-se ao posto clínico.
- Isso é coisa sem importância – disse o médico.
- Tome estes comprimidos – deu-lhe três.
Tomou.
O calor continuava, sólido e exacto. A chuva também, persistente.
A dor de cabeça estava a aumentar. Voltou ao posto clínico.
- Vamos já tratar disso – afirmou o médico – Ora vire-se para lá.
Virou-se.
O médico proporcionou-lhe quatro supositórios.
O calor ainda; e a chuva. Sempre.
A dor de cabeça a estoirá-lo. Retornou ao posto clínico.
- Vai ver que fica bom – explicou o médico – Ora abra a boca.
Abriu.
O médico extraiu-lhe imediatamente dois molares e um canino.
O calor estava realmente alucinante. A chuva era espaço líquido.
A dor de cabeça a invadir-lhe o corpo todo. Foi ao posto clínico. Uma vez mais.
- Então como vai isso? – perguntou o médico.
Puxou o facão e espetou-o, preocupado e consciente, através do médico.
Resultou.
(Mário-Henrique Leiria in “Contos do Gin-Tonic”, 1973)
(Post by Jota Marques)

sexta-feira, 16 de dezembro de 2022

LOURENÇO MARQUES (CARTA PARA UM AMOR) ~ RUI KNOPFLI

Cidade!,
nunca fui mais longe do que
à raia de Espanha.
Creio amar Paris,
conheço Paris dos filmes, a Concórdia
dos postais, a Torre Eiffel divulgada,
Hitler passando sob o Arco do Triunfo.
Amo Paris em Aragon e Eluard,
Paris dos pintores, Paris de Erenburgo.
Amo outras cidades, todas as grandes
cidades.
Madrid dos espanhóis e do coração despedaçado,
Stalinegrado das batalhas, Berlim do triunfo.
Nunca fui às grandes cidades,
amo-as porque os homens mas ensinaram
a amar.
Conheço Lisboa grande e colorida,
longe dos meus sentidos
e Johannesburg do ouro e do pó.
Nunca fui a New York ou São Paulo
do Brasil.
Chicago, Los Angeles, Londres,
Moscou, Rio, não conheço,
não conheço as grandes cidades,
que as há,
do estado de Massachusetts
ou da beira do Nilo.
Cidade!,
amo em retórica discursiva
as outras cidades.
Das viagens que tenho feito,
por rotas tão diferentes,
és sempre a meta, cidade que amo
desde sempre,
– para lá dos poetas, dos pintores,
dos filmes e da retórica discursiva.
Os nossos companheiros tiveram
a coragem de partir,
vivem nas grandes cidades, com história,
do mundo,
eu fui covarde e fiquei.
Experimentei, e não soube, viver longe de ti
noutras cidades.
Sei que este meu amor é a minha mediocridade
também,
a mediocridade de quem não teve asas
para subir mais alto
e orgulho, o orgulho que nada venceu,
nem o ser estranho na própria terra.
É uma ternura que escorre
das tuas tranquilas avenidas de acácias
e jacarandás,
dos claros prédios,
da população colorida,
da mansitude da baía,
do teu ar de provinciana janota.
Cidade, menina fútil
de pouca história,
carros pequenos nas ruas,
velas na baía, patinadores nos ringues,
terra de sete estuários,
de cinemas e cafés buliçosos,
de alegrias e pequenas traições,
leviana, ingénua, snob, bonita,
mulata, branca,
hindu, negra,
de cabelos louros e olhos amendoados,
morena sensual,
terra índica, minha terra,
minha amada inocente, prostituída.
Amo-te cidade da infância,
com girassóis e casa de madeira e zinco
a dormir na neblina da memória.
As quadrilhas de arco, flecha e pistola
de fulminantes,
os esconderijos da barreira,
o sexo e as coxas morenas de Xila,
a Sete de Março da política e dos antigos cafés,
a tristeza verde-negra do Enes,
o paço do senhor bispo
e S. Navio todos os meses.
Quebrou-se esse velho espanto
e nossos companheiros
tiveram a coragem
de partir para outras cidades,
com história, do mundo
(Para eles tua lembrança é
fugitiva mágoa).
Só,
eu fiquei abraçado a este amor anónimo.

Rui Knopfli
(Post by Jota Marques)