quarta-feira, 8 de março de 2023
sábado, 4 de março de 2023
Há palavras
que nos beijam
como se
tivessem boca.
Palavras de
amor, de esperança,
de imenso
amor, de esperança louca.
Palavras
nuas que beijam
quando a
noite perde o rosto.
Palavras que
se recusam
aos muros do
teu desgosto.
De repente
coloridas
entre
palavras sem cor,
espetadas,
inesperadas
como a
poesia ou o amor.
(O nome de
quem se ama
letra a
letra revelado
no mármore
distraído
no papel
abandonado).
Palavras que
nos transportam
aonde a
noite é mais forte,
ao silêncio
dos amantes
abraçados
contra a morte.
Alexandre O’Neill
(Post by Jota Marques)
segunda-feira, 13 de fevereiro de 2023
DEVIA MORRER-SE DE OUTRA MANEIRA
Devia morrer-se de outra maneira.
Transformarmo-nos em fumo, por exemplo.
Ou em nuvens.
Quando nos sentíssemos cansados,
fartos do mesmo sol
a fingir de novo todas as manhãs,
convocaríamos
os amigos mais íntimos com um cartão
de convite
para o ritual do Grande Desfazer:
«Fulano de tal
comunica a V. Ex.ª que vai
transformar-se em nuvem
hoje às 9 horas. Traje de passeio».
E então, solenemente, com passos de
reter tempo,
fatos escuros, olhos de lua de
cerimónia, viríamos
todos assistir à despedida.
Apertos de mão quentes. Ternura de
calafrio.
«Adeus! Adeus!»
E, pouco a pouco, devagarinho, sem
sofrimento,
numa lassidão de arrancar raízes…
(primeiro, os olhos…
em seguida, os lábios… depois, os
cabelos…) a carne,
em vez de apodrecer, começaria a
transfigurar-se
em fumo… tão leve… tão subtil… tão
pólen…
como aquela nuvem além (vêem?) –
nesta tarde de outono
ainda tocada por um vento de lábios
azuis…
José Gomes Ferreira
(Post by Jota Marques)
sexta-feira, 10 de fevereiro de 2023
A. RIMBAUD: OBRA COMPLETA
OS
POBRES NA IGREJA
Confinados
entre bancos de carvalho aos cantos da igreja
Aquecida
pelos seus hálitos fétidos, todos os olhos
Virados
para o coro de Talha dourada e para a mestria
De
vinte goelas berrando cânticos piedosos
Aspirando
a cera como aroma de pão quente
Felizes,
humilhado como cães escorraçados
Os
Pobres do bom Deus, seu patrão e senhor
Oferecem
os seus oremus risíveis e casmurros.
Às
mulheres, sabem bem os bancos lisos
Depois
dos seis dias negros de provações!
Embalam,
enrodilhando em estranhas peliças
Algo
parecido com crianças que choram pela vida
Com
os seios imundos de fora, estas sopistas
Com
olhar de prece mas sem nunca rezarem
Observam
um grupo de fedelhas maldosas
Pavonear-se
com os seus chapéus deformados.
Lá
fora, o frio, a fome e o pândego bêbado:
Tudo
bem. Mais uma hora; depois, padecimentos sem fim!
Entretanto,
à sua volta, geme, grasna, cochicha
Um
grupo de velhas com enormes papos:
Aí
estão os aterrorizados e os epilépticos
De
quem ontem se fugia nas encruzilhadas:
E,
esquadrinhando com o nariz antigos missais
Os
cegos guiados por um cão até ao adro.
E
todos, babando a fé mendicante e estúpida,
Recitam
a Jesus a sua lamúria infinita
Que,
amarelecido pelo lívido vitral, medita lá no alto
Longe
dos magros pecadores e dos pérfidos barrigudos
Longe
do cheiro a vianda e a tecidos bafientos
Farsa
prostrada e sombria de gestos repugnantes
E
a oração floresce e com expressões eleitas
E
as misticidades adquirem entoações urgentes
Quando,
das naves onde o sol perece, com pregas de seda
Banais
e sorrisos verdes, as Damas dos bairros
Distintos
– ó Jesus! –, as doentes do fígado
Mergulham
os dedos amarelos e compridos na água benta.
(A. Rimbaud,
1871)
A CRIANÇA QUE FUI CHORA NA ESTRADA ~ FERNANDO PESSOA
quinta-feira, 9 de fevereiro de 2023
terça-feira, 7 de fevereiro de 2023
PELO SONHO É QUE VAMOS...
Pelo sonho é que vamos,
comovidos e mudos.
Chegamos, não chegamos?
Haja ou não haja frutos,
pelo sonho é que vamos.
Basta a fé no que temos.
Basta a esperança naquilo
que talvez não teremos.
Basta que a alma demos,
com a mesma alegria,
ao que desconhecemos
e ao que é do dia a dia.
Chegamos?
Não chegamos?
Partimos.
Vamos.
Somos.
TODO AMOR ~ VINICIUS DE MORAES
Capa: Claudia Warrack (adaptação de Teresa Coelho)
Nº de páginas: 280
ISBN: 978-989-665-910-3
Diplomata e poeta brasileiro, Marcos Vinicius da Cruz de Mello Moraes
nasceu a 19 de Outubro de 1913, na Gávea, no Rio de janeiro, e morreu a 17 de
Abril de 1980, na mesma cidade. Em 1933, concluíu um Curso de Oficial de
Reserva e formou-se em Direito, passando pelos bancos da Universidade de
Oxford. Ao seguir a carreira diplomática, estabeleceu-se nomeadamente em Los
Angeles, Montevideu e Paris. Nas Letras, as suas preferências iam para
Katherine Mansfield, Georges Bernanos e François Mauriac. Convivia
habitualmente com intelectuais como Carlos Drummond de Andrade, João Cabral de
Melo Neto e Rubem Braga. O livro "O Caminho da Distância" marcou a sua estreia
literária, em 1933. Vinicius publicaria ainda "Forma e Exegese" (1935), "Ariana, a
Mulher" (1936), "Novos Poemas" (1938), "Cinco Elegias" (1943), "Poemas, Sonetos e
Baladas" (1946) e "Pátria Minha" (1949). Na sua poesia, a crítica encontrava
reminiscências do verso livre e generoso de Walt Whitman e do
transcendentalismo de um Charles Péguy ou de um Paul Claudel. O erotismo marca
o seu percurso poético, refreado todavia pela reserva da sua educação
religiosa.
A sua relação com a música popular estreitou-se com o encontro com António Carlos Jobim, em 1956, quando este musicou a peça "Orfeu da Conceição". Nessa época, Vinicius tinha já publicado um dos seus mais belos poemas, "O Operário em Construção". A parceria com Tom Jobim daria lugar aos grandes sucessos do movimento da bossa-nova e ao maior êxito internacional da dupla, "Garota de Ipanema". A adaptação cinematográfica de "Orfeu da Conceição" fora entretanto premiada em Cannes e recebera o Óscar do Melhor Filme Estrangeiro. Da coabitação com a música, a escrita poética de Vinicius surge assim mais comedida, mais segura e mais exacta. Falava agora da vida de todos os dias, da felicidade, da saudade, do amor, da sensualidade, das mulheres. O convívio com Baden Powell questionou-o sobre as raízes africanas da negritude e o candomblé preencheu o seu imaginário e o seu quotidiano, povoando-o de ritos mágicos e de ancestralidade. Os afrossambas "Apelo", "Berimbau" e "Samba em Prelúdio" datam desta colaboração. Em 1960, publica a sua "Antologia Poética" e, dois anos depois, "Para Viver um Grande Amor", renovando a sua poesia através da colaboração com a nova geração de artistas brasileiros, entre os quais Edu Lobo, Francis Hime e mais tarde Toquinho. Além de autor, tornou-se o seu próprio intérprete, participando em inúmeros espectáculos. Vinicius de Moraes veio a falecer em 1980 na sua famosa banheira, legando-nos a imagem de um espírito irreverente e eternamente apaixonado.
Da sua discografia como intérprete merece uma referência o disco "!Vinicius - 90 Anos", uma edição especial lançada em 2003, em formato duplo, reunindo os temas principais do cantor, quer como letrista quer como cantor/músico. Do alinhamento do disco fazem parte alguns dos grandes clássicos da bossa-nova brasileira, canções verdadeiramente inesquecíveis como "Onde Anda Você", "Marcha de Quarta-Feira de Cinzas", "Tarde em Itapoã", com voz de Vinicius e guitarra de Toquinho. Além destes, uma nota ainda para outras canções, com letras de Vinicius, autênticos hinos da MPB, como "Garota de Ipanema" (Tom Jobim), "Água de Beber" (Maysa), entre outros. Deste poeta brasileiro se disse que foi um homem sem limites, múltiplo. Nunca foi avaro das suas emoções, dos seus sentimentos, da sua amizade. Vinicius cruzou o caminho de grandes músicos. Trabalhou com os maiores nomes da música popular brasileira: Pixinguinha, Tom Jobim, Baden Powell, Carlos Lyra, Chico Buarque e Toquinho, entre outros. Mas este poeta das boémias e do anti-establishment (de tal maneira que dele Drummond de Andrade afirmou um dia: «Vinicius é o único poeta brasileiro que viveu como um poeta») começou por receber uma educação sofisticada, entre jesuítas, poetas latinos e interrogações metafísicas. A influência indelével de Vinicius nas letras musicais do Brasil foi de tal forma abrangente que existe um "antes" e um "depois" de Vinicius. Vinicius de Moraes é e será sempre uma referência eterna, flutuando nas palavras doces que deixou, marcas impetuosas da sua personalidade e do sentimento romântico, melancólico e deliciosamente temperado e festivo da cultura popular brasileira.
COM SUA PERMISSÃO, SIR LAURENCE OLIVIER…
Com sua permissão, Sir Laurence Olivier,
mas sábado eu dei uma entrada no Metro Copacabana, à base do araque, para rever
“A ponte de Waterloo”. Tinha visto o filme havia muito tempo, meu caro Sir, e
não sei por quê – ah, eu creio que com os anos aprendi a ver melhor a beleza
das mulheres! –, não cheguei, então, a
dar à sua nobre conjugue a metade da atenção que ela merece.
Não se zangue, não. Estou lhe falando de coração aberto. Mas eu achei Lady
Laurence Olivier uma coisa aabsolutamente estupefaciente. Confesso-lhe que,
dela, a grande e profunda beleza não me encantou apenas os olhos – comoveu-me o
coração e meio que me deixou triste. A beleza das mulheres quando é assim sublime,
e se acresce de encanto, é de cortar o peito de um homem.
Desculpe a confiança, mas, se eu fosse o senhor, largava esse negócio de
Sir, largava também esse negócio de ser de cinema e teatro (com mil perdões
pelo trocadilho) e ficava em casa o tempo todo prostrado, adorando sua senhora.
De novo lhe peço que não me leve a mal, pois não há em mim nem sombra de
segundas intenções, mas, se eu fosse o senhor, não punha uma mulher daquelas
para trabalhar. Não vê! Cada vez que ela me desse um sorriso infantil daqueles,
um sorriso confiante e doce daqueles; cada vez que ela pusesse nos meus aqueles
olhos enormes, aqueles enormes olhos inocentes, eternamente molhados de pureza
e sóbrio conhecimento – eu… eu… eu… eu sei lá o que é que eu fazia. Eu dava pantana;
eu entrava no Bolero e dançava um tango argentino com a primeira vigarista que
me passasse; eu fazia três entre-chats e quinze pas-de-bourrée em plena praia
de Copacabana; eu ia a Caxias, andava de trem da Central, era capaz de
suplantar o Ademir, fazia misérias, Sir Laurence Olivier, fazia misérias.
Aliás, quem sou eu para estar falando… Eu acredito piamente, Sir Laurence,
que o senhor faça misérias. Porque eu, que não sou Sir nem nada – ah, eu faço.
Também, hein, Sir Laurence… Ô peste de coisa danada de bonita que é mulher,
hein, Sir Laurence…
domingo, 5 de fevereiro de 2023
ABRAÇO
Roubaram-nos os abraços. Dizem eles. O que eles não sabem, e se calhar tu também ainda não sabes, é que eu continuo a abraçar-te. Tanto. Até à distância, que não é distância porque o coração não tem distância, abraço-te.
Abraço-te quando te olho. Quando o meu olhar chama o teu, abraço-te. Quando os meus olhos se cruzam com os teus, quando os nossos olhos se encontram e nos olhamos por dentro, abraço-te. Naquele preciso segundo em que paramos o mundo para nos demorarmos num olhar mais fundo, abraço-te.
Abraço-te quando te sorrio. Quando o meu sorriso chama o teu, abraço-te. Quando o meu sorriso se cruza com o teu, quando os nossos sorrisos se encontram e nos sorrimos de dentro, abraço-te. Naquele preciso segundo em que paramos o mundo para nos demorarmos num sorriso mais cúmplice, abraço-te.
Abraço-te quando te falo. Ou mesmo quando não te falo mas nunca me esqueço de ti.
Abraço-te quando e porque te amo. Quando o meu coração chama o teu, abraço-te. Quando o meu coração se cruza com o teu, quando os nossos corações se encontram e nos moramos por dentro, abraço-te.
(...)
Roubaram-nos os abraços. Dizem eles. O que eles não sabem, e se calhar nós também ainda nos esquecemos, é que enquanto existir o amor, ninguém consegue roubar abraços. O amor abraça-nos sempre além dos braços. E o amor nunca se rouba. É isso que nos salva. E que nos abraça para sempre.
Fecha os olhos. Sente bem, no teu coração. Sentes? Abraço-te.
Daniela Barreira
(Post by Jota Marques)
sábado, 4 de fevereiro de 2023
sexta-feira, 3 de fevereiro de 2023
SAUDADE
quinta-feira, 2 de fevereiro de 2023
sábado, 28 de janeiro de 2023
SILÊNCIOS DA MESMA VOZ
Há muito que a esperança não habita em mim. Falo daquele desejo já velhinho, que um dia partilhaste comigo, e que nos impelia a sair assim de mansinho do sonho para a realidade, ao encontro daquilo em que cada um de nós se tornara.
E quando o passado passar (e passará, porque o passado é hoje), e o futuro vier (e há-de vir, porque o futuro é hoje), então sim, entenderás tudo. E esse tudo será certo, simples, claro: hás-de ver depois, de costas para o Sol, fundir-se as duas sombras que tivemos numa só sombra, como dois silêncios da mesma voz.
quarta-feira, 21 de dezembro de 2022
MEDICINA TROPICAL
sexta-feira, 16 de dezembro de 2022
LOURENÇO MARQUES (CARTA PARA UM AMOR) ~ RUI KNOPFLI
nunca fui mais longe do que
à raia de Espanha.
Creio amar Paris,
conheço Paris dos filmes, a Concórdia
dos postais, a Torre Eiffel divulgada,
Hitler passando sob o Arco do Triunfo.
Amo Paris em Aragon e Eluard,
Paris dos pintores, Paris de Erenburgo.
Amo outras cidades, todas as grandes
cidades.
Madrid dos espanhóis e do coração despedaçado,
Stalinegrado das batalhas, Berlim do triunfo.
Nunca fui às grandes cidades,
amo-as porque os homens mas ensinaram
a amar.
Conheço Lisboa grande e colorida,
longe dos meus sentidos
e Johannesburg do ouro e do pó.
Nunca fui a New York ou São Paulo
do Brasil.
Chicago, Los Angeles, Londres,
Moscou, Rio, não conheço,
não conheço as grandes cidades,
que as há,
do estado de Massachusetts
ou da beira do Nilo.
Cidade!,
amo em retórica discursiva
as outras cidades.
Das viagens que tenho feito,
por rotas tão diferentes,
és sempre a meta, cidade que amo
desde sempre,
– para lá dos poetas, dos pintores,
dos filmes e da retórica discursiva.
Os nossos companheiros tiveram
a coragem de partir,
vivem nas grandes cidades, com história,
do mundo,
eu fui covarde e fiquei.
Experimentei, e não soube, viver longe de ti
noutras cidades.
Sei que este meu amor é a minha mediocridade
também,
a mediocridade de quem não teve asas
para subir mais alto
e orgulho, o orgulho que nada venceu,
nem o ser estranho na própria terra.
É uma ternura que escorre
das tuas tranquilas avenidas de acácias
e jacarandás,
dos claros prédios,
da população colorida,
da mansitude da baía,
do teu ar de provinciana janota.
Cidade, menina fútil
de pouca história,
carros pequenos nas ruas,
velas na baía, patinadores nos ringues,
terra de sete estuários,
de cinemas e cafés buliçosos,
de alegrias e pequenas traições,
leviana, ingénua, snob, bonita,
mulata, branca,
hindu, negra,
de cabelos louros e olhos amendoados,
morena sensual,
terra índica, minha terra,
minha amada inocente, prostituída.
Amo-te cidade da infância,
com girassóis e casa de madeira e zinco
a dormir na neblina da memória.
As quadrilhas de arco, flecha e pistola
de fulminantes,
os esconderijos da barreira,
o sexo e as coxas morenas de Xila,
a Sete de Março da política e dos antigos cafés,
a tristeza verde-negra do Enes,
o paço do senhor bispo
e S. Navio todos os meses.
Quebrou-se esse velho espanto
e nossos companheiros
tiveram a coragem
de partir para outras cidades,
com história, do mundo
(Para eles tua lembrança é
fugitiva mágoa).
Só,
eu fiquei abraçado a este amor anónimo.






















