quarta-feira, 15 de março de 2023


(Post by Jota Marques)

O MONTE DOS VENDAVAIS

Emily Brontë (1818-1848)

«Seja do que for que 
as nossas almas sejam feitas,
a dele e a minha são iguais»


“Wuthering Heights” (“O Monte dos Vendavais”, na sua tradução para português) é uma das obras mais célebres e mais lidas da literatura inglesa. Único romance da novelista e poetisa Emily Brontë, o livro foi escrito entre Outubro de 1845 e Junho de 1846, tendo sido editado apenas na segunda metade de 1847, após o lançamento de “Jane Eyre”, da sua irmã, Charlotte Brontë. Ao contrário deste último, que se transformou logo de imediato num enorme sucesso, “Wuthering Heights” foi alvo de duras críticas, especialmente devidas à crueldade vinculada pela personagem de Heathcliff. Mas, ao longo dos anos (o tempo, esse eterno juiz, a impor uma vez mais o seu sábio veredicto), “Wuthering Heights” foi-se tornando extremamente popular, sendo alvo das mais variadas formas artísticas de adaptação: no cinema, na televisão e na rádio; um musical, um ballet, 3 óperas, uma canção de grande sucesso mundial (de Kate Bush, em 1978) e até um jogo de personagens.


Em 1850, dois anos depois da morte da irmã, Charlotte Brontë publicou uma nova edição, onde não só corrigiu erros de impressão da edição original, como também reorganizou os parágrafos, alterando de igual modo a pontuação e, por vezes, o próprio texto. A maioria das edições modernas segue este texto “melhorado” de Charlotte. Aconselha-se no entanto a edição portuguesa da Leya-Gailivro (Novembro de 2010), apesar da capa pouco inspirada, em virtude de o texto ser essencialmente o mesmo da edição original, embora se tenham corrigido os inúmeros erros da muito pouco cuidada primeira edição. Nesta edição também se inclui o prefácio de Charlotte Brontë à edição de 1850.


Ler “O Monte dos Vendavais” é uma experiência inesquecível, uma viagem apaixonante ao mundo rural (condado de Yorkshire) da Inglaterra dos finais do século XVIII que serve de cenário à paixão, tão bela quanto trágica, entre Heathcliff e Cathy Earnshaw. Uma história de amor, de obsessão e vingança, que contamina tudo em seu redor, por causa da sua força tempestuosa e quase demoníaca, mas que perdura para além da morte. A estação de televisão britânica UKTV Drama organizou em tempos um estudo sobre a popularidade da literatura inglesa. Numa lista de vinte títulos, escolhidos por cerca de dois mil leitores, “Wuthering Heights” foi considerada a maior história de amor de todos os tempos (com “Orgulho e Preconceito” de Jane Austen em segundo lugar; e, estranhamente, “Romeu e Julieta” de William Shakespeare em terceiro). Adoptado em criança pelo patriarca da família Earnshaw, o senhor do Monte dos Vendavais, Heathcliff (resgatado da miséria numa rua de Liverpool) é ostracizado por Hindley, o filho legítimo, e levado a acreditar que Catherine, a sua irmã de circunstância, não corresponde à intensidade dos seus sentimentos. Abandona assim o Monte dos Vendavais para regressar anos mais tarde disposto a levar a cabo a mais tenebrosa vingança. Magistral na construção da trama narrativa, na singularidade e força das personagens, na grandeza poética da sua visão, nodoso e agreste como a raiz da urze que cobre as charnecas de Yorkshire, “O Monte dos Vendavais” reveste-se da intemporalidade inerente à grande literatura. Como em todas as épocas, as pessoas e a vida podem ser cruéis e as coisas nem sempre acabam como seria legítimo desejar. Aliás, o nosso percurso nesta etapa transitória que chamamos vida, não é mais do que o somatório das decisões que vamos tomando a cada instante. Um livro maravilhoso de paixão e ódio amoroso, que pela sua força descritiva se tornou um clássico universal.

Emily Brontë (1818-1848) era uma personalidade fascinante. É o mínimo que se pode dizer de uma jovem mulher que, sem instrução formal e sem experiência de vida, conseguiu escrever um dos romances mais estudados da literatura inglesa. Viveu com as suas duas irmãs, Charlotte e Anne, que escreveram sob o apelido de Bell (Ellis no caso de Emily). Filhas de um pastor anglicano de origem irlandesa, Patrick Brontë, cresceram numa região desolada, num ambiente de perfeita união com a natureza. “Wuthering Heights” é a obra de uma jovem escritora (tinha 28 anos quando acabou de escrever o livro, vindo a falecer de tuberculose apenas dois anos depois, a 19 de Dezembro de 1848), de carácter solitário e sensível, que procurou no silêncio da natureza as correspondências vibrantes da sua imaginação. O resultado foi esta obra-prima da literatura mundial.


Das inúmeras adaptações ao cinema, apenas vi quatro: as versões de 1939, 1954, 1970 e 1992. Se o primeiro, filme de William Wyler, é porventura o mais conhecido (com Laurence Olivier e Merle Oberon nos papeis principais), e o segundo, de Buñuel, o mais cinemático, a versão de Kosminsky (1992) é aquela que mais se aproxima do romance original, e onde temos direito a uma portentosa interpretação de Ralph Fiennes, bem como à excelente música assinada por Ryuichi Sakamoto. É, de longe, a minha versão favorita, se bem que goste muito da intérprete inglesa (Anna Calder-Marshall) da versão de 1970 (onde se pode ver também um Timothy Dalton de 26 anos, no seu segundo papel no cinema). Aqui chegado, apetece-me perguntar: que nível atingiria esta versão se a escolha tivesse recaído em Oliver Reed, o grande actor inglês, que por esta altura se encontrava no seu período de ouro? Julgo que não haveria ninguém mais indicado para interpretar a personagem apaixonada e violenta de Heathcliff. Oliver Reed tinha todos os predicados para nos ter podido brindar com uma interpretação histórica. Mas isso, infelizmente, não aconteceu. Por isso, a ideia com que se fica, sobretudo para os amantes incondicionais do romance original - onde eu me incluo - é que ainda está por fazer a versão definitiva de “Wuthering Heights” que consiga transpor para o grande ecrã toda a força do romance. Por isso, uma sugestão: vejam os filmes por mera curiosidade, mas, sobretudo, leiam o livro, porque será este que perdurará para sempre nas vossas memórias.

(Post by Jota Marques)

terça-feira, 14 de março de 2023

O HOMEM À IMAGEM DO DIABO

Edição do Autor (Março 2015)
Coordenação e revisão: Raul Paulo
Capa e paginação: Marta Oliveira
Imagem da capa: Man in a Black Suit with a Red Cloth
Dimensões: 147 X 210 X 18 mm
Nº de páginas: 260
ISBN: 978-989-970-222-6


«Não sou um escritor que guia táxis mas, pelo contrário, sou um motorista de táxi que escreve livros! Quero deixar bem claro: se neste pequeno volume, com pretensões de livro, falo muitas vezes de mim não é para me exibir (pôr-me em bicos de pés) nem me armar em carapau de corrida; mas para divulgar acontecimentos que, se foram do domínio público, no passado, caíram no esquecimento e hoje ninguém os conhece. Acho que se eles fazem parte da história popular tem que se falar deles. Não se pode apagar a história nem adulterá-la. Uma coisa é certa: eu nunca fui, não sou e nunca serei um poeta, muito menos um escritor, por falta de vocabulário e retórica literária. Apenas escrevo porque gosto de o fazer e de cá deixar alguma coisa, do pouco que sei, no campo erudito mas, do muito que sei, em matéria de vivência real, no que toca a cultura popular. Aí, a minha escola foi outra e, de certeza, muito superior à da maioria dos intelectuais. Sei muita coisa que não se encontra incluída nos manuais escolares, nem nas enciclopédias.»

(Post by Jota Marques)

sábado, 4 de março de 2023

 
(Post by Jota Marques)

 

Há palavras que nos beijam

como se tivessem boca.

Palavras de amor, de esperança,

de imenso amor, de esperança louca.

Palavras nuas que beijam

quando a noite perde o rosto.

Palavras que se recusam

aos muros do teu desgosto.

De repente coloridas

entre palavras sem cor,

espetadas, inesperadas

como a poesia ou o amor.

(O nome de quem se ama

letra a letra revelado

no mármore distraído

no papel abandonado).

Palavras que nos transportam

aonde a noite é mais forte,

ao silêncio dos amantes

abraçados contra a morte.

 

Alexandre O’Neill

(Post by Jota Marques)

 

(Post by Jota Marques)

quinta-feira, 2 de março de 2023

THE STORY OF MY LIFE

 

A história da minha vida
é muito fácil de se ler:
Começa no dia em que chegaste
e acaba no dia em que partiste.
 
A história da minha vida
começa e acaba contigo.
Os nomes ainda são os mesmos,
a história ainda é verdadeira.
 
Eu estava sózinho,
encontraste-me à espera
e fizeste-me teu.
E sentia receio
de que nunca pudesse ser
o homem que querias em mim.
 
Tu és a história da minha vida
e cada palavra é verdadeira.
Cada capítulo canta o teu nome,
cada página começa contigo.
 
É a história dos nossos tempos
e nunca a deixaremos ir embora.
E se eu morrer hoje
quero que tu fiques a saber.
 
Fica comigo
Partilha comigo
Cuida de mim
Permanece e fica perto.
 
E quando começar
ficarei acordado cada noite
sabendo que algures no fundo
o nosso amor pode ser escrito.
 
A história da minha vida
é muito fácil de se ler:
Começa no dia em que chegaste,
e acaba no dia em que partiste.


(Tradução livre de Jota Marques)
(Post by Jota Marques)