sábado, 4 de fevereiro de 2023

MEC: O AMOR É FODIDO

Editora: Assírio & Alvim (Dezembro 1994)
Dimensões: 137 X 195 X 12 mm
Nº de páginas: 192
ISBN: 972-370-374-2

«O sobressalto começa no título. Mesmo o leitor menos experiente suspeita que, embora escritores de todos os tempos e lugares se tenham dedicado a tentar definir o amor, talvez seja improvável que alguém alguma vez tenha optado por terminar uma frase começada pela expressão «o amor é» com a palavra "fodido". O amor costuma ter, apesar de tudo, boa imprensa - o que, pensando bem, é incompreensível. Dizer que o amor é fodido é, finalmente, tratá-lo como ele merece. É resumir, para quem não quer perder tempo com eufemismos eruditos, a etimologia da palavra paixão. Mas talvez “O Amor é Fodido” seja menos uma história do que uma tese. Uma sugestão acerca de um modo de falar. Uma hipótese sobre o modo de lidar, literariamente e não só, com o amor. Uma proposta que questiona se será apropriado descrever uma doença aterradora com metro e rima e que propõe, por isso, uma espécie de anti-lirismo. Ou, talvez mais exactamente, um lirismo anti-lírico. De acordo com esta tese, dizer que o amor é fogo que arde sem se ver é que é obsceno. Notar que é fodido é mera candura.» (do prefácio de Ricardo Araújo Pereira) 

***

«O dia em que a vi pela primeira vez. Santo Deus. Mãe de nós pecadores. Rogai por nós. A camisola que trazia! Era branca de neve, soltando novelos selvagens de angorá. Bastava olhar para aquela camisola para ficar marcado para a vida. Eu tinha um casaco azul, do meu período de praia, e fiquei coberto de caspa de lã fosforescente, luzidio e chamativo, só por ter tentado beijá-la.

Eu era um farol que passeava pela noite, atraindo os zombadores, para que pudessem zombar. E os caseiros, para que pudessem orgulhar-se de ter ficado em casa. Eu era um aviso em carne e osso aos candidatos a namoradeiros deste mundo: «Olha o que te pode acontecer!» Era esta a minha mensagem. Apaga a luz. Vai para o caralho. Pirilampo era o caralho do teu pai.

Devia ter percebido logo pela camisola que ela era uma rapariga má – porque nunca mais a vestiu. Não me perguntem a lógica deste raciocínio, porque me escapa. Mas há algo de sinistro numa mulher que só usa roupa uma vez. Nunca vinha igual. Dizia sempre que vinha igual, mas mentia. Eu também não reparava – por isso até estávamos bem um para o outro. Quando ela mentia eu acreditava.»

Filho de mãe inglesa e pai português, Miguel Esteves Cardoso (MEC) nasceu em Lisboa, em 1955, e quis ser escritor desde que se lembra de ler. Tem duas filhas, Sara e Tristana, e um casamento muito feliz com Maria João. Aluno brilhante, Miguel Esteves Cardoso fez os seus estudos secundários na Saint Julian's School e os superiores fora de Portugal, no Reino Unido. Em 1979, na Universidade de Manchester, licenciou-se em Estudos Políticos. Em 1982 vai para o Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa, como investigador auxiliar. Pouco depois ingressa no Instituto Superior de Ciências do Trabalho e da Empresa da Universidade de Lisboa, como professor auxiliar de Sociologia Política. Foi igualmente co-fundador do Gabinete de Filosofia do Conhecimento. Nas duas instituições foi contemporâneo de outros sociólogos conhecidos pela sua participação na vida pública: António Barreto, Vasco Pulido Valente e Maria Filomena Mónica. Em 1983 doutorou-se em Filosofia Política, com uma tese que relacionava a saudade e o sebastianismo no Integralismo Lusitano. Posteriormente, voltou a Inglaterra como visiting fellow do St. Antony's College, em Oxford, fazendo um pós-doutoramento em Filosofia Política. No ano de 1988, porém, Miguel Esteves Cardoso decidiu abandonar a carreira académica, para se dedicar à comunicação social, nomeadamente ao jornal "O Independente", cuja direção assumiu.

 A partir do contacto estreito com as bandas pós-punk e new wave da editora Factory, tais como Joy Division, New Order, Durutti Column ou The Fall, aquando da sua estada no Reino Unido, «MEC» (como era conhecido pelos fãs) começou por se dar a conhecer como cronista, escrevendo sobre música pop nos jornais "Se7e", "O Jornal" (actual "Visão") ou "Música & Som". Essas crónicas eram avidamente lidas pelos jovens portugueses, em complemento à transmissão da mesma música em programas como "Rock em Stock", de Luís Filipe Barros, "Rotação", "Rolls Rock" e "Som da Frente", de António Sérgio, na Rádio Renascença e na Rádio Comercial. Também se dedicou à crítica literária e cinematográfica, no "Jornal de Letras". Da imprensa, rapidamente passou a ser presença constante na rádio e na televisão, em parte devido à sua aparência invulgar e desajeitada de jovem intelectual, ingénuo e perverso, e às suas intervenções imprevisíveis, irónicas e irreverentes, às vezes desconcertantes. Na rádio foi autor e co-autor de diversos programas de rádio como "Trópico de Dança", "Aqui Rádio Silêncio", "W", "Dançatlântico" e "A Escola do Paraíso", todos na Rádio Comercial. Também colaborou com Herman José, como guionista do programa "Humor de Perdição", transmitido pela RTP em 1987. Estabeleceu polémicas com alguns intelectuais e escritores como Fernando Namora ou Eduardo Prado Coelho.

A convite de Vicente Jorge Silva, tornou-se colaborador do "Expresso", onde as suas crónicas satíricas "A Causa das Coisas" e "Os Meus Problemas", conheceram o acompanhamento regular de muitos leitores e o sucesso junto da juventude de classe média. Já na década de 1990 «MEC» viria a participar em vários talk-shows televisivos, entre os quais o popular "A Noite da Má-Lingua" (SIC) onde, semanalmente, sob a moderação de Júlia Pinheiro e na companhia de Manuel Serrão, Rui Zink, Rita Blanco, Alberto Pimenta, Luís Coimbra, Constança Cunha e Sá e Graça Lobo, eram satirizadas figuras e situações da vida pública portuguesa e internacional. Monárquico e anti-europeísta convicto, apresentou-se como candidato a deputado ao Parlamento Europeu, em 1987, como independente nas listas do Partido Popular Monárquico, não conseguindo a eleição, mas dando a esse partido o melhor resultado eleitoral de sempre. Ainda na década de 1980 Esteves Cardoso funda, com Pedro Ayres Magalhães, Ricardo Camacho e Francisco Sande e Castro, a "Fundação Atlântica", uma das primeiras editoras independentes portuguesas, produzindo discos de nomes como Sétima Legião, Xutos e Pontapés, Delfins, Paulo Pedro Gonçalves, Anamar e o album "Amigos em Portugal" dos Durutti Column. Daria também contributo directo à música pop portuguesa como letrista, com "Alhur", de Né Ladeiras, e "Foram Cardos Foram Prosas" (com música de Ricardo Camacho, interpretada por Manuela Moura Guedes). Em 1987 Esteves Cardoso foi incentivado pela actriz Graça Lobo a integrar-se na Companhia de Teatro de Lisboa, o que o levou à dramaturgia. Publicou então "Carne Cor-de-Rosa Encarnada" (encenada por Carlos Quevedo no Teatro Villaret), "Os Homens" (encenado por Graça Lobo) e traduziu várias peças de Samuel Beckett, das quais é digna de menção "Worstward Ho", que ficou com o título de "Pioravante Marche". Anos mais tarde intensificou a sua relação com a literatura, o que o faz afastar-se do jornalismo. 

O seu primeiro romance, "O Amor é Fodido", publicado em 1994, foi um best-seller, em boa parte devido ao título. Publicou mais dois romances, "A Vida Inteira" e "O Cemitério de Raparigas" e continuou a escrever crónicas em jornais, primeiro n'"O Independente", mais tarde no "Diário de Notícias". Em 1999, criou também um blogue, chamado "Pastilhas", que abandonou em 2002. No final dos anos 90, por motivos que nunca revelou, Miguel Esteves Cardoso abandonou subitamente os ecrãs televisivos, tornando-se mediaticamente invisível durante bastantes anos. Só voltaria a partir de 2017-2018, com o programa "Fugiram de casa dos seus pais", na RTP. Autor de uma obra que abarca todos os géneros, MEC foi o primeiro influenciador do país, mesmo antes de se falar em influenciadores. Há quatro décadas que traça o mais original e belo retrato de um dos mais antigos países do mundo, chamado Portugal. Casou-se por três vezes, a última das quais em 2000, com Maria João Lopes Pinheiro. Tem duas filhas, Sara e Tristana, do primeiro casamento, a quem os Durutti Column dedicaram um tema com esse título no álbum "Amigos em Portugal". Numa entrevista dada em 2006 Esteves Cardoso reconheceu ter tido problemas com álcool e o uso de cocaína, nos frenéticos tempos em que trabalhou no "Independente". É opositor do Acordo Ortográfico de 1990, gosta de gatos e aprecia a boa gastronomia.

«O que eu quis fazer com a minha maneira de escrever foi deixar as pessoas mais desempoeiradas, que desembuchassem, que deixassem de ser pretensiosas ou de tentar impressionar, que perdessem aquele português empedernido. Mas antes do mais sou um leitor, o tempo que eu escrevo é muito pequeno comparado com o tempo que leio, por cada oito horas de leitura há para aí uma hora, se tanto, de escrita.»

«O amar prova-se estando. As pessoas pensam que é preciso fazer uma declaração, um filme, um poema. Mentira! O amor prova-se estando, a pessoa estando ao pé da outra. Essa é que é a prova do amor, é estar. Assim como a prova de que se está apaixonado é estar a pensar na outra pessoa, não é fazer não sei quantas declarações, como nos filmes. A prova de que uma pessoa está apaixonada é estar sempre a pensar na outra pessoa e depois a prova de amor é estar com a pessoa que se ama sempre que se pode. E essa pessoa pode não estar a fazer nada. Mas quando a pessoa não está faz muita falta.»

«O prazer da vida é estar vivo, mesmo estando na merda, ou com problemas, está-se vivo. Assim como quando as pessoas se queixam de sofrimentos de amor. Queixam-se, mas é muito bom, porque é preciso estar apaixonado para sofrer. Por isso é muito bom ter esse sentimento, até porque ele eventualmente também desaparece. Mesmo que seja a chorar por uma causa perdida, não interessa – estamos vivos. Com o tempo, fica-se mais sábio e passa-se a querer o que é mais acessível, como viver até aos 80 ou passar uma semana sem dores, depois outra. Ter sorte.» (extractos de uma entrevista a Inês Meneses, em 2020)
(Post by Jota Marques)

sexta-feira, 3 de fevereiro de 2023

UM DIA VIRÁ

 

(Post by Jota Marques)

SAUDADE

 
Passamos uma época da vida coleccionando emoções. 
A outra, coleccionando saudades... 
Saudade é uma palavra extremamente complexa, cheia de significado e muito difícil de traduzir do português para outros idiomas, devido à sua precisão. Não tem tradução literal em muitas línguas. Saudade é uma das palavras mais utilizadas na poesia e na música romântica da língua portuguesa. Significa a memória de algo que aconteceu e a intensa vontade de reviver certos momentos. É um sentimento causado pela distância ou ausência de algo ou de alguém. A palavra saudade é de origem latina, do vocábulo "solitatem", que quer dizer “solidão”. A saudade, segundo a lenda, surgiu no período dos descobrimentos e definia a solidão que os portugueses sentiam por estarem longe da sua terra e dos seus familiares. Eram atacados por uma melancolia imensa por se sentirem tão sós e distantes dos seus. Saudade é aquele baú guardado dentro de nós, que a gente senta, abre, olha, lembra de tanta coisa, sorri, chora, suspira, mas sabe que tem que fechar, se levantar e seguir.

(Post by Jota Marques)

A NOSSA MORTE ~ VERGÍLIO FERREIRA

A 28 de Janeiro de 1916, nasce o escritor Vergílio Ferreira. Romancista e ensaísta português, natural de Melo (Gouveia), nasceu a 28 de Janeiro de 1916 e morreu a 1 de Março de 1996, em Lisboa. Estudou no Seminário do Fundão, entre 1926 e 1932, vindo a abandoná-lo para completar os estudos liceais. Licenciou-se em Filologia Clássica na Universidade de Coimbra onde, durante a segunda metade dos anos trinta, tomaria contacto com um neo-realismo emergente, formado, entre outras influências, na leitura de romancistas brasileiros. Foi professor do ensino liceal, em Évora (1945-1958) e em Lisboa (desde 1959 e até à aposentação). Notabilizou-se no domínio da prosa ficcional, sendo um dos maiores romancistas portugueses deste século.

(Post by Jota Marques)

“The Novel Reader” by Vincent van Gogh (1888)


(Post by Jota Marques)

quinta-feira, 2 de fevereiro de 2023

INDIANA STATE LAW LIBRARY


(Post by Jota Marques)

ALBERT CAMUS: "O ESTRANGEIRO"

 Trata-se de um dos mais importantes e relevantes livros da minha vida. Ainda tenho o exemplar que comprei aos 19 anos, em Dezembro de 1972, quando a edição da editora "Livros do Brasil - Lisboa" apareceu em Lourenço Marques. O livro custou-me 37$00 na altura e provavelmente adquiri-o na livraria da COOP ou então na Progresso, que eram aquelas onde costumava comprar mais livros. Com tradução de António Quadros, esta edição contém ainda uma introdução fundamental para a compreensão de algumas ideias explanadas por Camus, da autoria de Jean-Paul Sartre, que em 1942, quando "O Estrangeiro" foi lançado, pertencia ao vasto círculo de amigos do autor. Mais tarde, já na década de 50, a coisa esfriou um pouco por causa das ideias políticas, tendo-se Camus afastado do grupo que entretanto havia assumido posições mais radicais, muito próximas do Partido Comunista Francês.

Segundo o autor de "A Náusea", a obra-prima de Camus foi mais ou menos comentada pelo próprio autor em "O Mito de Sísifo", publicado alguns meses depois da edição de "O Estrangeiro": «O seu herói (Meursault) não era bom nem mau, nem moral nem imoral. Tais categorias não lhe convêm, faz parte de uma espécie muito singular à qual o autor reserva o nome de absurdo. Mas, sob a pena de Camus, essa palavra adquire duas significações muito diferentes: o absurdo é ao mesmo tempo um estado de facto e a consciência lúcida que certas pessoas tomam desse estado. E esse estado de facto é nada menos do que a relação do homem com o mundo.» A rotina diária que a esmagadora maioria das pessoas tem nas suas vidas cria um mundo subitamente privado de ilusões, onde o homem se sente perdido, se sente um estrangeiro.

E Sartre continua: «O homem absurdo não se suicidará: quer viver, sem abdicar nenhuma das suas certezas, sem dia seguinte, sem esperança e sem ilusões. O homem absurdo afirma-se na revolta. Fixa a morte com uma atenção apaixonada e esta fascinação liberta-o. Tudo é permitido, visto que Deus não existe e visto que se morre. (...) "O Estrangeiro" não é um livro que explica: o homem absurdo não explica, descreve; não é também um livro que prove. Camus sòmente propõe e não se inquieta com justificar o que, por princípio, é injustificável.»

Os primeiros parágrafos de "O Estrangeiro" são das frases mais citadas em toda a literatura universal. São palavras ditas por Meursault, que aos olhos e ao pensamento dos leitores identificam de imediato o tipo de personagem: «Hoje, a mãe morreu. Ou talvez ontem, não sei bem. Recebi um telegrama do asilo: "Sua mãe falecida. Enterro amanhã. Sentidos pêsames". Isto não quer dizer nada. Talvez tenha sido ontem. O asilo de velhos fica em Marengo, a oitenta quilómetros de Argel. Tomo o autocarro das duas horas e chego lá à tarde. Assim, posso passar a noite a velar e estou de volta amanhã à noite. Pedi dois dias de folga ao meu patrão e, com uma razão destas, ele não mos podia recusar. Mas não estava com um ar lá muito satisfeito. Cheguei mesmo a dizer-lhe: "A culpa não é minha". Não respondeu. Pensei então que não devia ter dito estas palavras. A verdade é que eu não tinha nada que me desculpar. Ele é que tinha de me dar pêsames. Mas com certeza o fará, depois de amanhã, quando me vir de luto. Por agora, é um pouco como se a mãe não tivesse morrido. Depois do enterro, pelo contrário, será um caso arrumado e tudo passará a revestir-se de um ar mais oficial.»

A 2ª mulher, Francine Faure, com quem Camus se casa em Lyon, em 1940

Estas poucas frases, logo na abertura de um romance, possuem uma força tremenda e inolvidável. Entram de assalto por nós adentro, exponenciando a vontade de continuar rapidamente a leitura (ao contrário do que se costuma dizer, "O Estrangeiro" é um livro muito acessível, fácil e rápido de se ler). Foi o que me aconteceu naquele longínquo ano de 1972. E depois de ter terminado rapidamente o livro, a vontade de continuar a ler Camus não se quedou por ali, levando-me a comprar sucessivamente todos os títulos com que me deparava nas poucas livrarias existentes na capital moçambicana: "A Peste", "A Morte Feliz", "O Avesso e o Direito", "Calígula", "A Queda", "O Homem Revoltado"... enfim, tornei-me um Camusiano compulsivo, tendo até hoje lido practicamente toda a sua obra. Mas "O Estrangeiro" mantém-se inultrapassável, e a ele voltei vezes sem conta ao longo da vida. Como há três meses atrás, quando a minha própria mãe morreu. Inesperadamente, ou talvez não, foi aquela abertura do livro que me veio de imediato ao pensamento. E o mesmo aconteceu com o meu amigo Zé Marrana, que chegou a transcrever para o Facebook essas mesmas frases, no dia da morte da sua mãe, há quatro anos atrás.

A 10 de Dezembro de 1957, Camus recebe o Prémio Nobel da Literatura em Estocolmo

"O Estrangeiro" foi adaptado ao cinema em 1967 por Luchino Visconti, com argumento de Suso Cecchi D'Amico, Georges Conchon e do próprio Visconti, e com Marcello Mastroianni, Anna Karina e Bernard Blier como principais actores. Visconti seria nomeado para o Leão de Ouro do Festival de Veneza de 1967, onde o filme se estreou a 6 de Setembro, Mastroianni teria também uma nomeação para a Sociedade Nacional de Críticos dos EUA em 1968, e o próprio filme seria nomeado para o Globo de Ouro de melhor filme estrangeiro de 1968. Devido a complicados direitos autorais pelo facto da filha de Camus, Catherine, não ter gostado do filme, o mesmo nunca tinha sido transmitido até agora em televisão ou editado em DVD. Mas felizmente tais impedimentos foram ultrapassados e o filme conheceu finalmente a sua edição em DVD e BLU-RAY em 2022. Visconti faz uma adaptação fiel ao livro, incluindo frases em off dele retiradas. De qualquer modo é dos tais casos em que nada substitui a leitura, mesmo quando se trata de um grande realizador a dar vida à obra no cinema.



O acidente mortal de Villeblevin a 4 de Janeiro de 1960, durante a viagem de Lourmarin a Paris




(Post by Jota Marques)

É UMA CANÇÃO DE AMOR...


(Post by Jota Marques)

A VIRGEM VERMELHA ~ ARRABAL

 
Título original: “La Vierge Rouge” (Éditions Acropole, Paris 1986)
Editora: Publicações Dom Quixote Lda (1987)
Tradução de Ricardo Alberty
Capa de Fernando Felgueiras
Dimensões: 150 X 230 X 20 mm
Nº de páginas: 260
ISBN: 978-972-200-887-7

Fernando Arrabal faz parte dessa tradição estética que quer expressar toda a angústia da condição humana, e que reúne autores como Kafka, Borges, García Márquez e Ionesco, entre outros. Este seu romance, repleto de nonsense e de um estranho lirismo, celebra a vitória das forças obscuras do inconsciente sobre as luzes da razão. A vida, diz-nos Arrabal, é algo que não nos é dado compreender. Uma mulher da alta sociedade espanhola, que desejava ter uma criança “sem pai”, obtém os préstimos de um genitor ocasional e dá origem a uma estranha rapariguinha que, aos onze anos, fala já correntemente várias línguas e cujos conhecimentos suscitam uma admiração generalizada. A mãe pretende que a sua filha seja a Rosa Mística, uma salvadora do mundo capaz de forjar a pedra filosofal e estabelece uma rígida educação para atingir esse objectivo. Alguns anos mais tarde, todavia, aquela que a opinião pública aprendera a conhecer como “a Virgem Vermelha” é assassinada pela mãe, com seis tiros de revólver. «É a tremer com todo o meu corpo que te escrevo. Com que imensos escrúpulos relatei aos polícias e aos juízes, desprovida de artifício e de fingimento, como fui obrigada a sacrificar-te. Desde então, confidente única do meu próprio tormento, sou assaltada por tantos tumultos que não existe dor que eu não tenha abrigado no meu coração, nem tortura que não tenha sofrido.»

***

Fernando Arrabal Terán (Melilha, 11 de agosto de 1932) é um escritor, dramaturgo e cineasta espanhol. Vive em França desde 1955, e segundo a sua própria definição é um desterrado. Aprendeu a ler e escrever em Cidade Rodrigo (Castela e Leão), onde venceu o prémio nacional de «superdotado» aos dez anos. Realizou os estudos universitários em Madrid. Ainda criança sofreu o misterioso desaparecimento do pai, depois de ter sido condenado à morte. A causa deste trauma, como escreveu o prémio Nobel Vicente Aleixandre, "El conocimiento que aporta Arrabal está teñido de una luz moral que está en la materia misma de su arte" ("O conhecimento que carrega Arrabal está preso a uma luz moral que está na própria matéria de sua arte"). Arrabal foi julgado e preso pelo regime franquista em 1967 devido ao engajamento político de sua obra. 



Durante seu encarceramento recebeu o apoio de inúmeros escritores da época, de François Mauriac a Arthur Miller, e uma declaração de Samuel Beckett ao tribunal pedindo sua absolvição: «Se existe culpa, que ela seja analisada à luz do grande mérito de ontem e da grande promessa de amanhã e, portanto, perdoada. Que Fernando Arrabal seja entregue à sua própria pena». Após a morte de Francisco Franco, foi incluído - ao lado de Santiago Carrillo, la Pasionaria, Líster e El Campesino - no grupo dos cinco espanhóis mais perigosos e impedido de retornar ao país. Anos mais tarde seria distinguido em Espanha com uma centena de condecorações, entre elas dois prémios nacionais de teatro. Algumas peças obtiveram grande sucesso como é o caso de "Carta de Amor", com María Jesús Valdés. Dirigiu sete longas-metragens, entre as quais "Viva la Muerte" (1971), "Irei Como um Cavalo Louco" (1973) ou "A Árvore de Guernica" (1975). Publicou catorze novelas, sete centenas de livros de poesía, vários textos para teatro, vários ensaios e a sua famosa "Carta al General Franco" em vida do ditador. O seu teatro completo editado nas principais línguas, tem sido publicado em dois volmes com mais de duas mil páginas, na Colección Clásicos Castellanos de España. Com Alejandro Jodorowsky e Roland Topor fundou em 1963 o Grupo Pânico. É Trascendent Satrape (Pataphysique) do Collège de 'Pataphysique desde 1990. Nos últimos 50 anos, quarenta personaldades receberam essa distinção, dentre elas: Marcel Duchamp, Eugène Ionesco, Man Ray, Boris Vian, Dario Fo, Umberto Eco e Jean Baudrillard. Amigo de Andy Warhol e de Tristan Tzara, participou do grupo surrealista de André Breton: Mel Gussow  considerou-o o único sobrevivente dos "três avatares da modernidade".

(Post by Jota Marques)