Autor: ELIA KAZAN (1967)
Título original: THE ARRANGEMENT
Editora: IBIS (2ª edição: Março de 1970)
Tradução: Maria Teresa Ramos
Local de Compra: Livraria Progresso, L.M. (112$50)
"O Compromisso", diz Kazan, trata do perigo do silêncio. Trata do entendimento não falado que estabelecemos ou fazemos com o próximo, e finalmente com nós próprios, não dizendo o que pensamos... Existe um enorme perigo neste compromisso-feito, neste silêncio-pactuado. E assim, em breve, depois de nos termos desabituado do hábito de dizer as nossas verdades aos outros, deixamos de dizer as verdades a nós mesmos, deixando de saber o que sentimos, e por fim podemos deixar de saber do que gostamos e do que não gostamos. Porque é político darmo-nos bem com os outros, as nossas reacções e as nossas acções tendem a tornar-se uma série de conveniências. Talvez que a mais importante função do artista seja a de manter abertas as genuínas vias de resposta. A salvação do escitor está na candura consigo próprio.
Pode reprovar-se o comportamento de Eddie Anderson. Toda a sua vida é uma série de compromissos falsos: o seu casamento, o seu trabalho, as suas escapadas extraconjugais, as suas amizades. Mas ninguém pode negar a sua humanidade. Eddie está à mercê das suas gónadas e hormonas, bem como da sua consciência e dos refinamentos sociais. Encontra-se preso às obrigações de que todos nós partilhamos. Ele nunca entendia. Não tem autocompaixão. Não dissimula as suas qualidades mais vis. Tem um imenso sentido de ironia. É frequentemente divertido. Cerca do fim do livro Eddie adquire aquilo que é mais necessário neste instável planeta: um novo modelo funcionante de um ser humano (Eleanor Perry in Life).
Elia Kazan adaptou de forma hábil e inteligente ao cinema este romance, uma intensa e fascinante reflexão sobre as forças opressivas da sociedade e do paradoxo a que não se pode fugir quando se compreende e aceita que a capitulação leva ao compromisso da mesma forma que o compromisso leva à capitulação. Um ciclo vicioso de onde nunca se consegue sair com lucidez. Tudo isto Kazan vai construindo em torno da sinuosa trajectória de um homem de sucesso, dinheiro e atribulada vida sentimental, que começa a pôr tudo em questão de forma obsessiva e demencial. No fundo, Kazan ataca o materialismo excessivo e dominador bem como a alucinação do sucesso num filme duro, amargo e desconcertante, servido por duas grandes interpretações a cargo de Kirk Douglas e Faye Dunaway.

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